29 de Janeiro de 2007
Terapeuta Ocupacional fala ao 'O Comerciário'
Bruna Ferraz Bacelar de Oliveira, é Terapeuta Ocupacional, formada pela Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública é especialista em Psicossomática pelo Instituto Junguiano da Bahia e Coordenadora do Centro de Atendimento Psicossocial de Vitória da Conquista (CAPS II) há 6 anos.
Nesta entrevista concedida ao O Comerciário ela fala sobre o trabalho realizado no Centro de Atendimento psicossocial de Vitória da Conquista.
O Comerciário: Como surgiu o caps?
Bruna Bacelar: O Centro de atendimento Psicossocial (Caps), vem junto com a reforma psiquiátrica, num primeiro momento, onde os loucos eram tratados como pessoas que não produziam que não eram úteis, as pessoas com distúrbios mentais faziam tratamentos nos “hospícios”, ou seja, nos hospitais psiquiátricos. Preocupados com os resultados não satisfatórios, os trabalhadores da área, os próprios usuários e os familiares resolveram se manifestar e fizeram um movimento para que esse tratamento fosse melhorado para que existisse um cuidado maior, visando oferecer um tratamento mais adequado para cada pessoa, tratando-o como individuo que tem suas “individualidades” e sua subjetividade e que tem que ser trabalhada esse movimento recebeu o nome de Movimento Antimanicomial.
O Comerciário: Quando foi fundado o caps II de Vitória da conquista?
Bruna Bacelar: Em 2002 o movimento acontecendo em todo o Brasil e aqui em Vitória da Conquista nesse mesmo ano foi fundado o Caps II, no início tínhamos 45 usuários que tinham vindo do Centro de Estudos e Atenção às Dependências Químicas (Cead), esses pacientes estavam lá, porque não tinha um lugar para tratar um portador de transtorno mental. Começamos a fazer os cadastros, transferimos esses pacientes para esta sede e começamos com uma equipe mínima, um psiquiatra, um enfermeiro, uma psicóloga e uma terapeuta ocupacional.
O Comerciário: Atualmente o Caps tem quantos pacientes cadastrados?
Bruna Bacelar:Hoje, quatro anos depois, temos quase 800 pacientes cadastrados e contamos uma equipe quase triplicada, hoje temos em torno de 13 profissionais de nível superior, fora os profissionais de nível médio que trabalham nas oficinas terapêuticas e todo pessoal de apoio, nesses quatro anos tivemos várias modificações, nós trabalhamos numa perspectiva que propicie a evolução na saúde mental.
A Bahia é o estado mais atrasado em questão de saúde mental e quando conhecemos outros centros como, São Paulo e Belo Horizonte percebemos o quanto essa diferença é marcante, mas, Vitória da Conquista se comparada com cidades da Bahia, temos conseguido evoluções significativas.
O Comerciário: Com relação a parcerias, o Caps II têm facilidade em firmá-las com empresas públicas e privadas?
Bruna Bacelar:Hoje conseguimos estabelecer parcerias com setores da sociedade privada e pública, consideramos esses feitos de grande relevância, uma vez que o primordial objetivo do Caps é a reinserção social desses portadores de transtorno mental, acreditamos que não adianta tratar e ficar com ele sob o nosso domínio, estaríamos fazendo o papel de um hospital bonzinho, e o nosso interesse é que eles cresçam, elevem a alto estima, independência e autonomia, e que possam voltar para a sociedade.
O Comerciário: Muitas pessoas acreditam que estes pacientes podem oferecer riscos a comunidade, muitos até questionam o funcionamento do Caps na área central da cidade, o que você diria a essas pessoas?
Bruna Bacelar:Um componente básico e que precisa ser muito bem trabalhado é o preconceito na sociedade, porque preparamos o usuário do caps, mas a sociedade não está preparada para recebê-lo, é nesse momento que ele mais sofre, quando aparece o preconceito, o estigma de que o louco é agressivo, fedorento, que o louco não toma banho, e nós sabemos que na verdade não funciona dessa forma.
Cada um de nós, já passou por momentos difíceis cujos sintomas podem ser classificados como transtorno mental, momentos de tristeza, choro, ansiedade, stress, angústia, todos esses são sintomas de uma depressão, mas quando é temporário e que não incapacita a pessoa não fazemos essa consideração, mas quando leva um tempo maior e percebemos que a pessoa realmente necessita de um suporte é que fazemos um diagnóstico de depressão.
O Comerciário: Qual a diferença entre um centro psicossocial e um hospício?
Bruna Bacelar: A diferença marcante é que no Caps ele vem fazer o tratamento e volta para casa, porque acreditamos que esse vínculo com a família e com a sociedade deve ser mantido, uma vez que não adianta conservá-lo dentro de hospital, porque quando ele sai tem que conviver com as diferenças.
A questão da individualidade é de grande relevância, pois no hospital todo mundo tem que fazer tudo no mesmo horário, e usar a mesma roupa que geralmente é uma farda, que é uma conduta hospitalar, e no Caps buscamos justamente o contrário, que cada um possa fazer o que quer na hora que quer claro que temos regras, qualquer serviço tem regras, mas tentamos ser mais maleáveis em relação a sua individualidade para que o paciente não esqueça o que é, para passar a ser um mero representante do local.
O Comerciário: Em linhas gerais o Caps veio para suprir que necessidades?
Bruna Bacelar: O caps vem para suprir uma necessidade de um cuidado em saúde mental porque quando falamos de um hospital, estamos falando de um tratamento e que no nosso imaginário está ligado mais a um tratamento medicamentoso, pois quem vai para um hospital toma remédio.
O remédio funciona, faz parte do tratamento, mas aqui no Caps ele não é o essencial, não é tudo, além do remédio, a pessoa precisa de outras coisas para ficar bem. Temos pacientes que não fazem uso de medicamentos, essas pessoas fazem oficinas terapêuticas, participam de um grupo de psicoterapia e não fazem uso de medicação alopática, até porque temos outras alternativas, a exemplo da medicação homeopática .
O Comerciário: Qual o perfil do paciente do Caps?
Bruna Bacelar: O perfil do paciente do Caps é toda e qualquer pessoa que esteja passando por um sofrimento mental, com idade igual ou superior a 18 anos.
Há alguns anos começamos a fazer algumas restrições com relação ao nível econômico-financeiro das pessoas que são atendidas, as que têm condições financeiras de pagar um atendimento psicológico e psiquiátrico particular são encaminhadas para outros profissionais, mesmo porque o nosso espaço físico já está insuficiente para atender a demanda, com relação às oficinas eles podem participar uma vez que em nenhum outro lugar da cidade são oferecidas oficinas terapêuticas.
O Comerciário: A sociedade ainda tem um receio em procurar atendimento em centros psicossociais, o que está sendo feito para mudar esse quadro e aproximar a comunidade?
Bruna Bacelar: Quando falamos de preconceito, estamos nos referindo até mesmo do medo de procurar o serviço por vergonha, muitos até pensam em não procurar um psiquiatra ou mesmo um psicólogo por serem médicos de doido, outras ficam preocupados em chegar aqui no caps e encontrar alguém conhecido e a pessoa ver que está fazendo um tratamento. Temos exemplos de usuários que ao chegarem olham para todos os lados para ver se não tem gente conhecida.
Nós tentamos trabalhar com eles justamente que às vezes a pessoa está passando por um sofrimento e que não está fora da consciência, e mostramos para elas que é muito mais importante entender que está passando por um momento difícil e buscar ajuda, do que fingir que não está acontecendo nada e que vai conseguir solucionar o problema sozinho. Sabemos que o preconceito existe percebemos até com agente que trabalha, mas, tentamos acabar com ele através de palestras, no Conselho Municipal de Saúde, escolas para explicar o que é o caps, como é funcionamento esclarecendo assim melhor a população.
O Comerciário: Quais são os trabalhos realizados no Caps, ou seja, o que complementa o tratamento?
Bruna Bacelar: Trabalhamos no caps com oficinas terapêuticas de (tecelagem, pintura, saúde, música, futebol, desenho, expressão corporal, entre outras), temos um atendimento individualizado, fazemos parcerias com academias, cursinhos pré-vestibulares e de computação, e também buscamos sempre fazer passeios, atividades fora do Caps, com o objetivo de reinseri-lo na sociedade.
Nos tentamos dar várias possibilidades para que a pessoas possa se encaixar em alguma atividade que sinta prazer em desenvolver.
O Comerciário: Em percentuais numéricos, o índice de melhora dos pacientes é significativo?
Bruna Bacelar: Sim, mas é difícil falar em cura e alta na saúde mental, porque é um tratamento demorado, na verdade é um tratamento paliativo, geralmente o paciente toma a medicação faz o tratamento, tem uma melhora, e é exatamente nesse momento que acha que pode parar, fica um tempo bem e depois tem uma recaída, esse arquivo fica morto e vivo, mas se contabilizarmos o número de pessoas que foram internadas depois que começaram a fazer o tratamento aqui no caps, esse número é muito pequeno, apenas duas pessoas foram encaminhadas.
Nós tentamos de todas as formas evitar o internamento, porque sabemos o quanto é marcante e quanto tem uma representação social ruim.• Publicado por Paulo Nunes, às 19:18.
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