Vitória da Conquista . Bahia
 Especiais...
.

14 de Dezembro de 2006
A morte de Getúlio Vargas

De volta ao passado

Amanhã fará 50 anos que o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas, nascido em São Borja a 19 de abril de 1883, deu um tiro no próprio peito e saiu da vida para entrar definitivamente na História do Brasil. É o nosso maior mito político, ainda hoje apontado em pesquisas de opinião pública como o melhor presidente da República que o país já teve.
Foi chefe do governo provisório depois da Revolução de 1930, presidente eleito pela Constituinte em 17 de julho de 1934, e ditador entre 10 de novembro de 1937 e 29 de outubro de 1945 quando foi deposto pelos militares. Retornou ao poder eleito pelo voto popular em 31 de janeiro de 1951. Para finalmente se matar na no dia 24 de agosto de 1954, escapando de ser novamente deposto.
Se o marqueteiro Duda Mendonça tivesse idade, engenho, disposição e chance para ter servido à Getúlio naquela época, seu famoso slogan que elegeu Paulo Maluf prefeito de São Paulo (“Foi Maluf quem fez”), reciclado agora para tentar reeleger a prefeita Marta Suplicy (“Marta fez”), se aplicaria com naturalidade ao presidente que escolheu a morte para continuar vivendo na memória coletiva.
Foi Getúlio quem fez a Companhia Siderúrgica Nacional para produzir aço, a Companhia do Vale do Rio Doce para extrair minério, a Petrobrás para explorar petróleo e a Eletrobrás para gerar energia. Foi Getúlio quem criou o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e o Banco do Nordeste para financiarem investimentos públicos e privados.
Foi Getúlio quem deu às mulheres o direito de voto. Foi ele quem deu aos trabalhadores a legislação que ainda hoje disciplina suas relações com os patrões. E foi ele quem abriu as portas da administração pública para a admissão de funcionários por meio de concurso e do sistema de mérito. Finalmente, foi ele o arquiteto da estrutura política partidária nacional que vigorou no país até o golpe militar de 1964.
De resto, foi Getúlio quem fez o Brasil rural e atrasado de 1930 evoluir mais rapidamente para o Brasil industrial inaugurado, digamos assim, pelo presidente Juscelino Kubitschek no final do seu mandato.
Getúlio fez tudo isso sem levantar a voz, sem dar murros na mesa e negociando à direita e à esquerda – mais à direita. O aparelho de propaganda do Estado fez o resto. Fez dele “o bom velhinho” e o “pai dos pobres”. E, valendo-se da censura, escondeu o líder autoritário que governou como ditador durante oito anos, avalizou o emprego da tortura contra seus desafetos políticos, e permitiu que judias como Olga Benário Prestes, mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, fossem deportadas para a Alemanha de Hitler e ali morressem. Olga morreu na câmara de gás de um campo de concentração.
Este blog, a partir do primeiro minuto de amanhã - uma terça-feira como aquela em que Getúlio se suicidou – viajará de volta ao passado para oferecer a mais completa cobertura dos fatos que marcaram para sempre a História do Brasil. Eu e vocês faremos de conta ao longo de 24 horas que amanhã é o dia 24 de agosto de 1954. E que nesse dia era possível fazer uma cobertura jornalística em tempo real.
A primeira notícia que postarei aqui, logo depois da meia-noite de hoje, dirá que o Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, está cercado por uma multidão enfurecida que berra pedindo a renúncia do presidente Getúlio Vargas. Na companhia da família e de alguns assessores, o presidente fuma um charuto, medita e aguarda a chegada do seu Ministro da Guerra. Dali a oito horas ele se matará. Mas nem ele mesmo sabe disso. E a multidão que sitiou o palácio ameaçando invadi-lo para dali escorraçar o presidente dará lugar a outra que chorará e rezará de joelhos inconformada com sua morte.
(Hoje à tarde darei detalhes da cobertura mais ambiciosa da história deste blog.)

23/08/2004 16:58

Daqui a 15 horas Getúlio se matará com um tiro no coração

Vai ser assim a partir da meia-noite: faremos de conta que esta terça-feira é a terça-feira 24 de agosto de 1954. E que o presidente da República se chama Getúlio Vargas. E que ele está sendo pressionado por generais, almirantes e brigadeiros para renunciar ao cargo. À medida que os fatos forem se sucedendo, eles aqui serão postados mais ou menos na hora em que ocorreram. Getúlio encerrará uma reunião de emergência com seus ministros em torno das 4 da madrugada. Em seguida irá dormir. E dali a mais duas ou três horas será acordado pelo irmão. Dará o tiro no peito por volta das 8h – vocês ficarão sabendo detalhes disso 20 ou 30 minutos depois. E assim por diante.
Lá pelas 10h, quando manifestações de protesto estarão sendo registradas por todo o país, começarão a ser postados aos poucos depoimentos e artigos como se tivessem sido escritos logo depois do suicídio de Vargas. A situação econômica do país, por exemplo, será analisada pelo economista Raul Veloso. O jornalista Jânio de Freitas, então repórter do Diário Carioca, contará o que viu ao longo da madrugada de plantão na porta do Palácio do Catete. Millôr Fernandes narrará seu encontro com uma amiga pouco antes de saber que Getúlio se matara. O Diretor de O Estado de S. Paulo, Ruy Mesquita, lembrará que estava no Rio e que se reconciliara com Carlos Lacerda.
Pedro Simon era um estudante de 17 anos. E como tal refletirá sobre o impacto da morte de Getúlio no Rio Grande do Sul. O ministro José Viegas, da Defesa, revelará como a morte de Getúlio o livrou da prisão. Em entrevista ao blog, um menino de 10 anos de nome Cristovam Buarque contará o que se passou em sua casa no Recife. E muitas outras pessoas, famosas hoje ou não, também falarão.
Quem quiser poderá ouvir o então deputado Afonso Arinos, da UDN, discursando na Câmara em 13 de agosto de 1954 exigindo a renúncia de Getúlio. Foi um discurso que entrou para a História. E também 10 músicas e comerciais de rádio que fizeram sucesso em 1954.

24/08/1954 00:25 - A madrugada está quente no Rio

Nas noites e madrugadas de agosto, a temperatura costuma ser amena no Rio de Janeiro. Mas nesta madrugada ela parece particularmente quente. Passa da meia-noite, já é terça-feira, dia 24 de agosto de 1954. As luzes continuam acesas na maioria das casas e no Palácio do Catete onde vive e despacha o presidente da República, Getúlio Vargas. E os rádios... Ah, sim. Muitos rádios estão ligados com os ouvintes atentos ao noticiário inflamado desde o assassinato no último dia 5 do major-aviador Rubens Vaz. Atiraram para matar Carlos Lacerda, o mais feroz adversário de Getúlio. O major-aviador que lhe dava proteção foi morto com dois tiros. Lacerda escapou com um leve ferimento no pé. O caso se tornou conhecido como o "Atentado da rua Tonelero". É nessa rua que mora Lacerda. Getúlio está sob forte pressão para que renuncie ao cargo. O chefe de sua segurança, Gregório Fortunato, foi preso sob suspeita de ter encomendado o crime.

 
24/08/1954 00:40 - Generais reunidos

Está em curso uma reunião de generais no Ministério da Guerra. Eles discutem qual deverá ser a posição definitiva do Exército depois que um numeroso grupo de brigadeiros assinou anteontem uma nota pedindo a renúncia do presidente da República. A Aeronáutica é a mais inflamada das armas desde o assassinato do major-aviador Rubens Vaz (ler nota abaixo). Almirantes reunidos ontem na casa de um deles também cobraram que Getúlio renuncie.
Os portões do Catete permaneceram ontem abertos como em dias normais. Mas o dia não foi normal. A noite não foi normal – centenas de pessoas pediram aos berros a queda de Getúlio a poucas quadras do palácio. Foram mantidas à distância por soldados do Exército. Tudo indica que esta madrugada será a mais anormal das madrugadas da história do Catete. Talvez da história recente do país.

24/08/1954 01:25 - Goulart consulta coronel

O "queridinho" do presidente Getúlio Vargas deixou há 30 minutos o gabinete do Chefe de Polícia do Rio, coronel Paulo Torres. João Goulart, ministro do Trabalho, é o "queridinho" de Getúlio. Ganhou a confiança dele ainda em São Borja, cidade gaúcha onde Getúlio nasceu e tem uma fazenda. Foi Getúlio quem fez de Goulart um político. Foi Goulart quem ajudou Getúlio a se tornar um alvo ainda mais atraente para a oposição.
Goulart propôs e Getúlio concedeu um reajuste de 100% para o salário mínimo. O reajuste foi considerado absurdo pelos patrões em geral e pela oposição a Getúlio em particular.
No início desta madrugada, Goulart procurou o coronel Torres interessado em saber como está o clima político no Rio. O coronel confidenciou a um jornalista que não dorme há três dias. Goulart deve embarcar hoje para Porto Alegre.

4/08/1954 02:05 - Como foi o atentado contra Lacerda

O jornalista Otávio Bonfim, do Diário Carioca, foi "testemunha ocular" do atentado que resultou na morte do major-aviador Rubens Vaz e desatou a mais grave crise político-militar do atual governo de Getúlio. Bonfim conta aqui o que viu:
"Na noite do dia 5 de agosto, Carlos Lacerda realizara um comício no pátio do Colégio São José, na Tijuca, um dos mais conceituados estabelecimentos de ensino do Rio de Janeiro. Como sempre, fora feroz nos ataques ao presidente Getúlio Vargas, conforme relataram os repórteres que cobriram o encontro político. Essa seria a principal matéria da edição do dia seguinte do Diário Carioca (DC), um jornal pequeno, mas de muita força política e que faz do antigetulismo sua razão de ser. Armando Nogueira fora um dos repórteres destacados para cobrir o comício. Quando ele acabou de escrever a matéria, ficamos ainda conversando na redação (Av. Rio Branco, no 25) com o Prudente de Morais Neto (Pedro Dantas), comentarista político do jornal. Trabalho na sessão Internacional e Deodato no Esporte. Este possui um velho Packard, um carrão com estribo.
Já passava da meia-noite quando deixamos a redação. Armando ia na frente, ao lado do Deodato. Eu ia atrás. Entramos na Toneleros pela Praça Arco Verde, onde ela começa. A iluminação só era boa no centro da rua; junto aos prédios, imperava a penumbra. O prédio onde mora o Nogueira (vizinho ao do Lacerda pelo lado esquerdo de quem está de frente) fica praticamente no meio da quadra. Uma longa quadra que vai da Rua Paula Freitas até a Siqueira Campos. Pelo lado esquerdo de quem sobe a Toneleros, entre essas duas ruas fica a Hilário de Gouveia, onde há uma delegacia de polícia, entre a Toneleros e a Praça Serzedelo Correia.
Ao cruzar a Paula Freitas, Deodato diminuiu a marcha do carro. Armando - bom papo - conversava com Deodato. Eu olhava para fora. Foi quando vi o Lacerda, um homem de bom porte físico, figura inconfundível. Ele estava em companhia do filho Sérgio e conversava com um homem jovem (Vaz), que estava encostado num carro pequeno. Lacerda estava de frente para a rua e Vaz de costas. Lembro-me de ter dito: "Seria fácil atirar no Lacerda". O carro do Deodato seguia lentamente e pararia três metros adiante.
Quando cruzamos o carro parado (de Vaz), Sérgio seguiu em direção à porta da garagem. Lacerda gesticulava muito. Quando Deodato parou o carro, em frente ao prédio onde morava o Armando, esse desceu e continuou conversando com o Deodato. Eu olhava para fora, pelo vidro traseiro. Lacerda despediu-se do homem (Vaz) e seguiu em direção à garagem. Vaz começou a andar no sentido da traseira do carro para assumir a direção. (Não chegou a entrar nele.) Nesse momento vi uma pessoa no meio da rua, empunhando um revólver (o pistoleiro Alcino do Nascimento). Os tiros começaram quase que imediatamente. Vaz foi atingido ao descer o meio-fio e caiu pesadamente. Tenho a impressão de que ele não viu o que ocorria.
Depois de abater Vaz, Alcino atira na direção seguida por Lacerda, que, instintivamente, procura proteção junto ao muro da garagem. Ele percebe que o filho está a salvo dentro da garagem. Saca o revólver e começa a atirar em Alcino, que, esgotado o tampo de sua 45, sai correndo pelo meio da rua iluminada até a Paula Freitas, onde um táxi o aguardava. Com o pistoleiro em fuga, Lacerda entra na garagem. Vi tudo pelo vidro traseiro do Packard do Deodato. Armando, do lado de fora, instintivamente subiu no estribo do carro e disse: "Atiraram no Lacerda". As outras três pessoas (dois homens e uma mulher) que estavam próximas procuraram abrigo junto a uma árvore.
O instinto jornalístico funcionou imediatamente. Deodato movimentou o carro, com o Armando no estribo, até um botequim na esquina da Toneleros com a Siqueira Campos para telefonarem para o jornal. Saí do carro e fui ver quem estava caído. Fui o primeiro a chegar junto a Vaz, que arquejava já nos estertores da morte. Instantes depois, Lacerda sai pela porta principal do prédio onde morava e caminha em direção a Vaz, onde eu já me encontrava. Ele caminha normalmente e diz, com o vozeirão de barítono: "Pelo amor de Deus, vamos socorrer este moço, um pai de família".
Um táxi passava pelo local. Simultaneamente, Lacerda e eu fizemos sinal para que parasse. Lacerda implorou ao motorista: "Vamos levar este moço para o hospital. Ele não pode morrer". O motorista acede e desce do carro. Lacerda segura Vaz pelas pernas e eu pelos ombros (era pesado). O motorista ajuda e segura a vítima pela cintura. Colocamos Vaz no banco traseiro do carro grande. Nessa altura, Sérgio Lacerda tinha aparecido. Não me lembro ao certo quem seguiu no carro. Penso que foi o Lacerda. O motorista dizia que não iria sozinho, pois "não queria ter complicações.
Armando telefonou do botequim para o jornal, onde Pompeu de Sousa, chefe da redação, já terminara o trabalho e conversava com Prudente de Morais Neto. Pompeu determinou que fôssemos à redação para escrever a reportagem: "Nós vimos o atentado a Lacerda". Foi um texto a duas mãos (do Armando) e três cabeças. O jornal abafou no dia seguinte com a foto de seus três repórteres na primeira página. Tivemos que narrar os fatos inúmeras vezes, inclusive na Delegacia de Polícia Especializada e na "República do Galeão". Sempre ouvíamos o comentário: "A sorte de vocês é que trabalham para um jornal antigetulista. Se fossem da Última Hora [de Samuel Wainer, amigo de Getúlio], seria difícil explicar como estavam no local do atentado, na hora exata".


24/08/1954 02:40 - Getúlio perdeu o sono

Getúlio não dorme. No segundo andar do Palácio do Catete, ele aguarda a volta do seu ministro da Guerra, Zenóbio da Costa, e do chefe do Estado Maior das Forças Armadas, marechal Mascarenhas de Moraes. Eles trarão notícias frescas sobre a reunião dos generais. Getúlio sabe que sua sorte está sendo decidida pelos generais. Esses, por sua vez, sabem que Getúlio está disposto a só sair morto do Catete. “Só sairei morto daqui”, disse Getúlio mais de uma vez nos últimos dias. A pedido dele, a frase foi a manchete de capa do jornal Ultima Hora em sua edição de ontem.
O jornalista Samuel Wainer, dono do jornal, é aliado político de Getúlio. Foi autor da célebre entrevista publicada nos jornais dos Diários Associados onde Getúlio, recluso em sua fazenda de São Borja, admitiu ser candidato a presidente da República na eleição de 1950. Uma vez eleito, Getúlio mandou que o Banco do Brasil emprestasse dinheiro a Samuel para que ele criasse um jornal.
O Ultima Hora defende Getúlio e ataca Lacerda, dono da Tribuna da Imprensa. Os demais jornais baixam o pau em Getúlio.

24/08/1954 02:55 - Encurralaram o presidente

O Exército exige que Getúlio renuncie.
Foi isso que disseram há pouco ao presidente o general Zenóbio da Costa, ministro da Guerra, e o marechal Mascarenha de Moraes, chefe do Estado Maiorb das Forças Armadas. Getúlio ouviu-os em silêncio. Não perdeu a serenidade. Jamais perdeu. Nesse momento, os três ainda conversam na varanda do segundo andar do Catete que tem vistas para o jardim. Getúlio sabe o nome de cada planta do jardim do Catete. Ninguém morou ali mais tempo do que ele.

24/08/1954 03:00 - Getúlio convoca reunião de ministros

O presidente Getúlio Vargas acaba de convocar uma reunião extraordinária do seu ministério. Auxiliares dele estão pendurados em telefones à caça dos ministros.
Há pouco, um avião militar fez um vôo rasante sobre o Palácio do Catete.

24/08/1954 03:20 - Catete isolado

O boato de que Getúlio renunciou ou foi deposto atraiu curiosos e jornalistas para as proximidades do Palácio do Catete. A Polícia Especial do Exército estabeleceu um cordão de isolamento em torno do palácio. Ali só estão sendo admitidos ministros e assessores do presidente chamados para uma reunião de emergência.
Um repórter da Ultima Hora conseguiu entrar. Seus colegas de outros jornais protestaram inutilmente.


24/08/1954 03:30 - Igreja de prontidão

O Cardeal do Rio de Janeiro, Dom Jaime Câmara, deixou às pressas sua casa no bairro do Sumaré e foi direto para o Palácio São Joaquim, séde administrativa da arquidiocese. Está reunido com seus bispos auxiliares - Dom Hélder Câmara, Dom José Távora e Dom Jorge Marcos de Oliveira. O cardeal teme que a crise político-militar evolua para um golpe de Estado. E pior: que produza atos de violência.


24/08/1954 04:00 - A menina e o patrão

Prossegue a reunião do presidente Getúlio Vargas com seus ministros. Dela também participam o chefe do Gabinete Militar da presidência da República, general Caiado de Castro, o genro de Getúlio, almirante aposentado Amaral Peixoto, presidente nacional do PSD, e Alzirinha, única filha de Getúlio e mulher de Amaral.
Sem cargo formal no governo, Alzirinha atua como uma espécie de secretária particular do presidente. É a pessoa na qual ele mais confia.
Ela se refere ao pai como "meu patrão". O pai se refere a ela como "a minha menina".
A "menina" não queria que o "patrão" disputasse a presidência da República em 1950. Achava-o velho para isso. E temia que lhe faltasse respaldo militar para governar.
Getúlio teve respaldo até recentemente - até o atentado da rua Tonelero no último dia 5.
Ele está em silêncio enquanto seus ministros tentam encontrar uma possível saída para a crise.


24/08/1954 04:10 - A frase do ano

"O senhor Getúlio Vargas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve ser eleito. Eleito não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer à revolução para impedi-lo de governar"
(Carlos Lacerda na Tribuna da Imprensa em 01/06/1950. Getúlio foi eleito em outubro daquele ano com a mais consagradora votação conferida até então a um presidente no Brasil: 3,8 milhões de votos. Teve 600 mil votos a mais do que seu antecessor, o general Eurico Gaspar Dutra.)


24/08/1954 04:32 - A saída, onde está a saída?

A reunião ministerial está no fim. O presidente Getúlio Vargas leu e releu em silêncio o "Manifesto de Solidariedade aos Brigadeiros" assinado por 37 generais da ativa. O documento lhe foi entregue pelo ministro da Guerra. Diz a certa altura: "(a renúncia) seria o melhor caminho para tranqüilizar o povo e manter unidas as Forças Armadas".
Os ministros Osvaldo Aranha, da Fazenda, e Tancredo Neves, da Justiça, propuseram a decretação do estado de sítio que suspende os direitos e as garantias individuais. Imaginam que um ato de força como esse seria capaz de garantir a permanência de Getúlio no poder.
Alzirinha quer que o pai resista - Goulart também quer.
O ministro José Américo de Almeida, de Viação e Obras Públicas, acha melhor que Getúlio renuncie para evitar "derramamento de sangue".
O ministro da Aeronáutica disse que não controla mais seus comandados. O da Marinha admitiu que está mais ou menos na mesma situação do seu colega da Aeronáutica. O do Exército sugeriu que os generais concordariam com outra solução - talvez a licença temporária do cargo.
Getúlio ainda não disse o que pensa.

4/08/1954 04:45 - Democracia ou morte

Getúlio pensa que encontrou uma saída para o impasse: a licença temporária do cargo.
O ministro da Guerra já deixara o Palácio do Catete ameaçando convocar tropas leais ao governo para prender os militares rebelados quando o presidente decidiu licenciar-se do cargo e registrou numa folha de papel: "Como os senhores não encontraram uma solução, eu tenho a minha. Eu me licencio, desde que os ministros militares assegurem a ordem e o respeito aos poderes constituídos. Do contrário, os revoltosos encontrarão aqui o meu cadáver".
Em outras palavras: se o regime democrático for preservado, o presidente concorda em se afastar do cargo durante um período. Se essa garantia não lhe for dada, ele prefere morrer.

24/08/1954 05:02 - O flerte com a eternidade

Em julho de 1950, a três meses de ser eleito presidente da República, Getúlio concedeu uma entrevista ao jornal Folha da Noite, de São Paulo. Nela, antecipou de maneira precisa a conjuntura dramática que agora tenta enfrentar.
Ele disse:
- Conheço o meu povo e tenho confiança nele. Tenho plena certeza de que serei eleito, mas sei também que, pela segunda vez, não chegarei ao fim do meu governo. Até onde resistirei? Se não me matarem, até que ponto meus nervos poderão agüentar? Uma coisa, porém, eu lhes digo: não poderei tolerar humilhações.
Ele disse também:
- Tenho 67 anos e pouco me resta de vida. (...) Empenhar-me-ei a fundo em fazer um governo eminentemente nacionalista. O Brasil não conquistou ainda sua independência econômica. Tudo farei nesse sentido.
E por fim, disse:
- Terei de lutar. Se não me matarem.

24/08/1954 05:20 - Que dia será este?

A Secretaria da Presidência da República divulgou a seguinte nota:
“O Presidente da República reuniu hoje o Ministério para o exame da situação político-militar criada no país. Ouvidos os ministros, cada um de per si, foram debatidos longamente os diversos aspectos da crise e as suas graves conseqüências. Deliberou o presidente Getúlio Vargas, com integral solidariedade dos seus ministros, estar em licença, passando o governo ao seu substituto legal, desde que seja mantida a ordem, respeitados os poderes constituídos e honrados os compromissos solenemente assumidos perante a Nação pelos oficiais-generais de nossas Forças Armadas. Em caso contrário, persistiria inabalável no seu propósito de defender as suas prerrogativas constitucionais com o sacrifício, se necessário, de sua própria vida”.
Getúlio trancou-se em seu quarto para dormir. A maioria dos ministros abandonou o palácio. Ainda estão lá os ministros da Fazenda e da Justiça.
Houve reforço na tropa que protege o Catete. Foi distribuído armamento pesado.
O ministro da Guerra está novamente reunido com os generais que querem ver Getúlio pelas costas. Tenta convencê-los de que a licença temporária do cargo pode vir a ser o melhor desfecho para a crise.
Alguns pontos do Rio estão severamente policiados - principalmente as cercanias de quartéis e de outras unidades militares.
O dia começa a amanhecer. Mas que dia será este?


24/08/1954 05:30 - Do que Alzirinha tem medo

Alzirinha está com medo!
Ela dispara telefonemas na tentativa de antecipar a reação dos militares à decisão do seu pai de se licenciar do cargo. Mas não lhe sai da cabeça a frase há pouco escrita por Getúlio sobre a possibilidade de "os revoltosos" encontrarem no Catete o cadáver dele.
Getúlio falou em morrer quando leu a nota dos brigadeiros exigindo sua renúncia: "Só morto sairei do Catete".
No último dia 13, Alzirinha encontrou na mesa de trabalho do pai um papel rascunhado por ele onde estava escrito: "Deixo à sanha dos meus inimigos o legado da minha morte".
Ela não arredará o pé dali até ser escrito o epílogo da crise.


24/08/1954 06:00 - Café Filho é um homem feliz

O vice-presidente Café Filho recebeu em casa o comunicado oficial sobre o pedido de licença que Getúlio encaminhará ao Congresso ainda hoje. Diz a Constituição que o presidente pode se licenciar por um prazo de até 90 dias.
Desde as primeiras horas da noite de ontem, entrando pela madrugada de hoje, reúnem-se em torno de Café Filho amigos, políticos e jornalistas, entre os quais, Carlos Lacerda.
Sussurram e trocam idéias a respeito da crise política. E vez por outra um deles vai ouvir o noticiário do rádio na sala principal do amplo apartamento da avenida Nossa Senhora de Copacabana.
As notícias são transmitidas a todo o momento.
Foi um dos amigos do vice-presidente, atento ao que dizia o rádio, quem antecipou, radiante, o que só agora se tornaria oficial: - O Getúlio acaba de pedir licença. Café Filho vai assumir o governo.
Todos, ali, brindaram ao novo presidente. E desejaram-lhe boa sorte.
Café Filho tenta disfarçar sua felicidade. Em vão.

 
24/08/1954 06:10 - Acertou na mosca

"O tiro que arrebatou a vida ao infortunado Major Vaz atingiu-me também e ao meu governo pelas costas. De tudo isto restarão duas vítimas: ele e eu." (Confidência de Getúlio ao ministro Tancredo Neves, da Justiça, no dia seguinte ao do atentado contra Carlos Lacerda.)


24/08/1954 06:30 - Calmaria esconde a crise

Os bondes começam a circular lotados pelas ruas principais do Rio.
Algumas pessoas idosas caminham pela calçada da praia de Copacabana.
Mercearias e quitandas registraram ontem um movimento fora do comum. Donas de casa anteciparam compras com receio de que o agravamento da crise político-militar resulte em tropas nas ruas e comércio fechado.
O Palácio do Catete continua guardado por tropa leal ao governo. Mas governo não há mais desde que Getúlio se conformou em pedir licença do cargo.
O que há agora é a expectativa de um novo governo - o de Café Filho, um político de relativa expressão apenas em seu Estado, o Rio Grande do Norte. A essa altura, sob efeito de remédios, ele dorme ou tenta dormir na casa de um amigo.
Julgou mais seguro deixar seu apartamento.
Do ponto onde me encontro dá para ver o mar crispado na altura do Leme, e a chegada à praia de algumas mulheres acompanhadas de filhos pequenos.
A calmaria na cidade não fornece a menor pista do que pode estar acontecendo nos bastidores da crise.

 
24/08/1954 06:46 - Um traidor em ação

Café Filho traiu Getúlio.
No último sábado, ele procurou o presidente no Palácio do Catete e sugeriu uma dupla renúncia - a do presidente e a dele. Argumentou que essa seria a única alternativa ao golpe militar que acabaria derrubando os dois.
Getúlio nada lhe respondeu. Limitou-se a dizer que pensaria no assunto.
No dia seguinte, Getúlio chamou Café Filho ao Catete e disse que não renunciaria ao cargo. Estava muito velho para admitir humilhações.
O vice-presidente é também presidente do Senado. E foi nessa condição que ele discursou ontem no Senado contando o que havia proposto a Getúlio, o que ele lhe respondera no domingo, e oferecendo sua renúncia ao cargo de vice-presidente.
Foi visto depois em conchavo político com Lacerda em um dos apartamentos do Hotel Serrador.

 
24/08/1954 06:57 - Irmão de Getúlio pode ser preso

Dois oficiais da Aeronáutica acabam de chegar ao Palácio do Catete e querem levar Benjamim Vargas para depor na Base Aérea do Galeão. Benjamim é irmão do presidente. É na Base Aérea que funciona o que ganhou o apelido de "República do Galeão" - o inquérito militar comandado por oficiais da Aeronáutica que apura o atentado da rua Tonelero.
Benjamim é suspeito de ter encomendado o crime por meio de Gregório Fortunato, chefe da guarda presidencial.
Gregório confessou sob tortura sua participação no episódio. Está preso.
Ainda não se sabe se Benjamim acompanhará os dois oficiais da Aeronáutica até a Base Aérea do Galeão.
A temperatura política voltou a ferver dentro do Palácio do Catete.

24/08/1954 07:23 - A solidão do poder que se esvai

É pouco provável que Getúlio deixe seu irmão ir depor no inquérito que apura a morte do major-aviador Ruben Vaz, vítima do atentado da rua Tonelero. Se ele deixar, amanhã ou depois poderá também ser chamado para depor. E isso não combina com a disposição manifestada por ele depois de ter lido na semana passada a nota assinada por 30 brigadeiros cobrando sua renúncia à presidência da República.
Naquela ocasião, o presidente foi direto e franco em conversa com o portador da nota, o chefe do Estado Maior das Forças Armadas João Batista Mascarenhas de Moraes:
- Ainda que me veja abandonado pela Marinha, Exército e Aeronáutica, e pelos meus próprios amigos, eu resistirei sozinho. Já vivi muito. Agora posso morrer. Nunca darei, entretanto, uma demonstração de pusilanimidade.
Alguns amigos ainda estão com ele. Mas esses não têm o menor poder de fogo para reverter o quadro de absoluta solidão política em que se encontra o mais longevo governante que o país conheceu.
Getúlio chegou ao poder em 1930 como chefe de uma revolução. Comandou um governo provisório até ser eleito presidente pela Constituinte de 1934.
Na condição de presidente, governou até novembro de 1937. E dali até outubro de 1945 governou como ditador.
Deposto pelos militares, ao poder retornou pelo voto popular em janeiro de 1951.
Está prestes novamente a perder o poder.
Ao seu redor, ninguém acredita que a licença temporária do cargo lhe devolverá o cargo mais tarde.

24/08/1954 07:59 - O "Anjo Negro" abriu o bico

O "major" Gregório Fortunato é um homem que não ri nunca. Olha as pessoas de cima para baixo, com seu imenso corpo envergando ternos de casemira inglesa e chapéus panamá, tem as unhas finamente tratadas, possui carros de luxo e uma legião de agentes de seguranças recrutados na zona rural de São Borja, terra natal de Getúlio e também a dele.
Enriqueceu a sombra do chefe, que não liga e nunca ligou para dinheiro. É adulado por políticos e empresários, que antes ou depois de passarem pelo gabinete de Getúlio sempre passam por sua sala no andar térreo do Catete. Criado desde criança pela família Vargas, é capaz de matar ou de morrer por ela.
Tudo indica que por ela mandou matar Lacerda e, sem querer, matou o major-aviador Vaz.
O poderoso Gregório, cujo perfil tracei acima, deixou de existir desde que foi preso por oficiais da Aeronáutica no último dia 11 - menos de uma semana depois do atentado da rua Tonelero.
Na "República do Galeão", Gregório fraquejou pela primeira vez na vida. Depois de resistir impávido até a ameaça de ser jogado de um avião em pleno mar, e de receber a visita do deputado udenista Adauto Lúcio Cardoso que lhe cobrava "o nome do mandante", ele desmoronou ao ver uma edição falsa da "Tribuna da Imprensa" que pensou ser verdadeira.
Diante dos coronéis Adil e Scaffa Falcão, encarregados do inquérito aberto pela Aeronáutica, o "Anjo Negro" de Getúlio leu no jornal que Benjamim Vargas havia confessado ser o mandante do crime - e que fugira em seguida para Montevidéo. Gregório inocentou Benjamim. E desde então se dispôs a contar o que sabe.
Como costuma ocorrer com presos que abrem o bico sob tortura, Gregório deve se dispôr também a contar o que não sabe.

24/08/1954 08:15 - De barba feita e sozinho

- Agora és tu, mais tarde com toda certeza quererão a mim. Essas coisas são feitas por tabela. É o cerco, não é? - perguntou Getúlio ao irmão Benjamim ao lhe abrir a porta do seu quarto no segundo andar do Palácio do Catete.
Getúlio aconselhou Benjamim a não ir depor na Base Aérea do Galeão. Dali a instantes, o ajudante-de-ordem viu Getúlio passar em robe de chambre para seu gabinete particular no mesmo andar. Ele trancou-se no gabinete por três ou quatro minutos.
O mesmo ajudante-de-ordem e Alzirinha, que como de hábito estava ao telefone, viram Getúlio voltar ao quarto com a mão esquerda dentro do bolso do pijama segurando algo.
Getúlio mandou chamar o barbeiro da presidência. Depois chamou Benjamim. O irmão reuniu-se com ele no quarto já sabendo o que Getúlio soubera pouco antes: que os generais rebelados não aceitam a licença temporária do cargo. Querem a renúncia.
De barba feita e depois de ter despachado com o irmão, Getúlio fechou a porta do quarto e ficou sozinho. Está só desde então.

 
24/08/1954 08:25 - ???????????????????????????

Aconteceu alguma coisa no Palácio do Catete!

24/08/1954 08:30 - Choro nas escadas do Catete

Tem gente entrando e saindo às pressas do Palácio do Catete.
Um soldado que dá guarda ao palácio viu um ajudante-de-ordem do presidente Getúlio Vargas descer as escadas chorando para de imediato tornar a subi-las.

 
24/08/1954 08:33 - Ambulância a caminho do Catete

Um enfermeiro do Hospital Souza Aguiar ouviu há pouco de um médico que uma ambulância saiu em disparada com destino ao Palácio do Catete. A direção do hospital está a par disso. Há muito nervosismo entre os médicos.

 
24/08/1954 08:36 - Sem acesso, sem notícia

As linhas telefônicas do Palácio do Catete estão ocupadas. É impossível ligar de fora para lá.

24/08/1954 08:40 - Um tiro. Ouviu-se um tiro

Foi um tiro.
Ou melhor: ouviu-se um tiro há pouco no Palácio do Catete.
Há pouco, não. Há mais de 20 minutos, pelo menos.
Foi tudo que deu para saber até agora.
Até mesmo o tiro ainda não está confirmado.
Foi um tiro, sim. Foi.

 
24/08/1954 08:43 - Tem uma ambulância no Catete

As poucas dezenas de pessoas que olhavam há pouco curiosas na direção do Palácio do Catete viram chegar ali uma ambulância.
Os soldados que protegem o palácio estão nervosos. Um deles foi ríspido com uma mulher de meia idade que perguntou pelo presidente.

24/08/1954 08:45 - Getúlio está morto

Parece que o presidente Getúlio Vargas está morto.
Sim, o presidente Getúlio Vargas morreu.
Ele morreu.
O presidente Getúlio Vargas morreu.

 
24/08/1954 08:50 - Getúlio se suicidou

Alzirinha confirmou para um amigo dela que o pai morreu. Deu um tiro no coração.
O presidente Getúlio Vargas se suicidou.

 
24/08/1954 08:55 - Deu no Repórter Esso

Em edição extraordinária, o Repórter Esso acabou de anunciar que o presidente Getúlio Vargas se suicidou.
Começa a crescer o número de pessoas nas vizinhanças do Palácio do Catete. Uma mulher desmaiou e foi carregada por um soldado para os jardins do palácio.
A ambulância está parada lá dentro.
E nesse momento...

 
24/08/1954 09:00 - Getúlio deixou uma carta

Tem uma carta-testamento deixada por Getúlio. Ela será divulgada daqui a pouco. Estão passando uma cópia para Heron Domingues, locutor do Repórter Esso.

 
24/08/1954 09:06 - "Saio da vida para entrar na História"

Eis a carta-testamento do presidente Getúlio Vargas. Estava na mesa de trabalho dele no segundo andar do Palácio do Catete.

"Mais uma vez, as forças e os interesses contra o povo coordenaram-se e novamente se desencadeiam sobre mim. Não me acusam, insultam; não me combatem, caluniam, e não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Sigo o destino que me é imposto. Depois de decênios de domínio e espoliação dos grupos econômicos e financeiros internacionais, fiz-me chefe de uma revolução e venci. Iniciei o trabalho de libertação e instaurei o regime de liberdade social. Tive de renunciar. Voltei ao governo nos braços do povo. A campanha subterrânea dos grupos internacionais aliou-se a dos grupos nacionais revoltados contra o regime de garantia do trabalho. A lei de lucros extraordinários foi detida no Congresso. Contra a justiça da revisão do salário mínimo se desencadearam os ódios. Quis criar liberdade nacional na potencialização das nossas riquezas através da Petrobrás e, mal começa esta a funcionar, a onda de agitação se avoluma. A Eletrobrás foi obstaculada até o desespero. Não querem que o trabalhador seja livre.
Não querem que o povo seja independente. Assumi o Governo dentro da espiral inflacionária que destruía os valores do trabalho. Os lucros das empresas estrangeiras alcançavam até 500% ao ano. Nas declarações de valores do que importávamos existiam fraudes constatadas de mais de 100 milhões de dólares por ano. Veio a crise do café, valorizou-se o nosso principal produto. Tentamos defender seu preço e a resposta foi uma violenta pressão sobre a nossa economia, a ponto de sermos obrigados a ceder.
Tenho lutado mês a mês, dia a dia, hora a hora, resistindo a uma pressão constante, incessante, tudo suportando em silêncio, tudo esquecendo, renunciando a mim mesmo, para defender o povo, que agora se queda desamparado. Nada mais vos posso dar, a não ser meu sangue. Se as aves de rapina querem o sangue de alguém, querem continuar sugando o povo brasileiro, eu ofereço em holocausto a minha vida.
Escolho este meio de estar sempre convosco. Quando vos humilharem, sentireis minha alma sofrendo ao vosso lado. Quando a fome bater à vossa porta, sentireis em vosso peito a energia para a luta por vós e vossos filhos. Quando vos vilipendiarem, sentireis no pensamento a força para a reação. Meu sacrifício vos manterá unidos e meu nome será a vossa bandeira de luta. Cada gota de meu sangue será uma chama imortal na vossa consciência e manterá a vibração sagrada para a resistência. Ao ódio respondo com o perdão.
E aos que pensam que me derrotaram respondo com a minha vitória. Era escravo do povo e hoje me liberto para a vida eterna. Mas esse povo de quem fui escravo não mais será escravo de ninguém. Meu sacrifício ficará para sempre em sua alma e meu sangue será o preço do seu resgate. Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História."

 
24/08/1954 09:36 - Sim, talvez, quem sabe...

A maré começou a virar.
A essa hora,  há fortes sinais na paisagem do Rio de que a opinião das pessoas, até ontem claramente desfavorável ao presidente Getúlio Vargas, pode mudar de direção.
Na rua do Ouvidor, no centro da cidade, ainda há pouco passou um grupo dando vivas a Getúlio e vociferando contra Lacerda.
As pessoas que se aglomeram perto do Palácio do Catete rezam, choram e gritam o nome do presidente.
Um sincero sentimento de dor espalha-se por toda parte.
O motorista de um amigo meu, que ontem se queixava do custo de vida e criticava Getúlio, desatou no choro quando soube que ele está morto.
Ainda é cedo, muito cedo para concluir que o gesto do presidente foi o último e mais duro golpe político aplicado por ele em seus adversários. Mais tarde é possível que tal conclusão se revele certa.

24/08/1954 10:13 - Getúlio, da revolução de 30 ao suicídio

1930 – Eclode a revolução de 30. Um grupo de militares exige a renúncia do presidente Washington Luís. Getúlio assume o Governo Provisório depois de ter disputado e perdido a eleição para o paulista Júlio Prestes.
1931 – É promulgada, em março, a Lei de Sindicalização, subordinando os sindicatos ao Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, recém criado.
1932 – Promulgação do Código Eleitoral que cria a Justiça Eleitoral e institui o voto secreto e o voto feminino. Em 9 de julho, eclode a Revolução Constitucionalista em São Paulo, que é derrotada pelo Governo Provisório em outubro.
1933 – Em março, realizam-se eleições e, no dia 15 de novembro, instala-se a Assembléia Nacional Constituinte.
1934 – Em julho, a Assembléia Nacional Constituinte promulga uma nova Constituição e elege Getúlio presidente da República.
1935 – Grupos ligados à Aliança Nacional Libertadora (ANL) promovem revoltas em quartéis de Natal, Recife e Rio de Janeiro, num episódio que ficaria conhecido como Intentona Comunista.
1937 – Instauração da Ditadura do Estado Novo. Uma nova Constituição é outorgada no Brasil. O Congresso é fechado e os partidos políticos extintos.
1938 – Integralistas atacam o Palácio Guanabara onde se encontravam o presidente e sua família.
1939 – Criado o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) com o objetivo de difundir a ideologia do Estado Novo junto às camadas populares. Tem início a Segunda Guerra Mundial.
1940 – No Dia do Trabalho, a lei do salário mínimo, de 1939, entra em vigor.
1941 – Criação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN). Instalação, em todo país, da Justiça de Trabalho (CLT).
1942 – O Brasil declara guerra ao Eixo, completando seu alinhamento aos Estados Unidos.
1943 – No dia do Trabalho, é anunciada a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT).
1945 – Criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Em 29 de outubro, Vargas é deposto pelo Alto Comando do Exército. O general Eurico Gaspar Dutra é eleito presidente e Vargas, deputado e senador pelo Rio Grande do Sul e São Paulo.
1946 – Dutra toma posse em janeiro. Em setembro, a Assembléia Nacional Constituinte promulga a nova Constituição.
1950 – Candidato pelo PTB, Vargas é eleito em outubro presidente da República.
1951 – Getúlio toma posse e privilegia medidas que considera necessárias para a industrialização do país.
1952 – Vargas inaugura o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e estatiza a geração de energia elétrica, decidido a lutar pelos interesses nacionais.
1953 – João Goulart (PTB), ministro do Trabalho, propõe aumento de 100% do salário mínimo. É criada a Petrobrás e instituído o monopólio estatal na produção do petróleo. Essas medidas provocam a reação dos conservadores liderados pela UDN.
1954 - Atentado contra Carlos Lacerda (UDN) no dia 5 de agosto resulta na morte do major-aviador Rubem Vaz e desata a mais grave crise político-militar do governo Vargas. Na madrugada de hoje, durante reunião ministerial no Palácio do Catete, Getúlio foi pressionado a renunciar, mas escolheu a via da licença temporária do cargo. Os militares descartaram a licença e insistiram com a renúncia. Horas depois o presidente suicidou-se. Tinha 71 anos.

 
24/8/1954 11:09 - Na cama, ensangüentado

Quando chegou de ambulância no Palácio do Catete por volta das 8h20m, o médico Rodolpho Perissé, 27 anos, de plantão no serviço externo do Hospital Souza Aguiar, não fazia a mínima idéia de quem precisava dos seus cuidados. Imaginou tratar-se de alguma pessoa das vizinhanças vítima de um acidente.
Acompanhado por um enfermeiro, Perissé foi levado para o segundo andar. E ali, ao entrar no primeiro quarto do corredor à esquerda, deparou-se com a cena que jamais esquecerá.
Metido em um pijama com listas azuis e brancas, ensangüentado na altura do coração, jazia o corpo do presidente Getúlio Vargas. A cabeça estava mais para o meio da cama de casal onde ele costumava dormir. O resto do corpo, mais inclinado para a esquerda. Um dos pés pendia da cama.
Havia três pessoas sentadas na cama: Alzirinha, o marido Amaral Peixoto e o ministro Tancredo Neves, da Justiça.
A mulher de Getúlio, dona Darcy Vargas, desabara inconsolável numa poltrona próxima da cama. E numa cadeira ao pé da cama, o filho do presidente, Lutero, parecia em estado de choque. Ao seu lado, o ajudante-de-ordem Hélio Dornelles.
Perissé usou seu estetoscópio para verificar se o coração de Getúlio ainda batia. Não batia.
Levantou uma pálpebra, depois outra. Por fim, pingou éter nos olhos do presidente. Nenhum reflexo pupilar.
O corpo ainda não esfriara.
Constatou marcas de pólvora nas mãos de Getúlio, indicando que ele as usara para aproximar o cano do revólver do seu mamilo esquerdo e puxar o gatilho. Ele atirou por cima da roupa.
- O que vão fazer com ele? - gemeu dona Darcy.
- O presidente Getúlio Vargas está morto - anunciou o médico.
Alzirinha teve a impressão de que o pai esboçara um sorriso quando ela irrompeu no quarto dele depois ter ouvido o barulho seco do disparo. No instante seguinte, o sorriso sumiu.

24/08/1954 12:10 - O desespero de Gilda (por Millôr Fernandes)

No escuro da madrugada o telefone toca sem cessar. Atendo, apreensivo, como sói. E’ Gilda: ”Pelo amor de Deus, vem cá.”
“Agora?.São quatro da manhã!”.
“Agora, pelo amor de Deus!” A voz é desesperada.
Gilda mora também aqui em Ipanema. Quatro quadras adiante.Vou correndo (sou um atleta das quantas). Ainda correndo subo as escadas: o edifício de Gilda não tem elevador.
Gilda deixou a porta entreaberta. Está jogada no sofá. Beijo-a, protetor: “Que foi, meu bem? “
Com expressão abandonada ela estira o braço e me entrega o
envelope elegante, junto com uma folha de papel timbrado da Presidência da República: “Chegou há meia hora”.
Leio a carta:
“Gilda, antes que as forças me desfaleçam, decido com bravura o meu destino. O resto suportaria com denodo - teu abandono é o que me fere de maneira insuportável. Quando mais precisava, tu foges de mim. Tenho resistido, dia a dia, hora a hora, no desespero deste amor tardio, mas é tudo inútil. Sem teu amparo, renuncio a mim mesmo. Se nada mais me queres dar, te dou o meu sangue, te ofereço, em holocausto, a minha vida.
Escolho este gesto para estar sempre contigo.
Meu sacrifício só você saberá que foi por amor, não pelo poder. Meu sangue será uma chama imortal em tua consciência, e me
manterá para sempre em tua memória e em teu coração. Ao teu abandono respondo com o perdão. Era escravo do teu amor, e escravo parto para a vida eterna.
Serenamente dou um passo saindo da vida, enquanto a morte entra em nossa história. “
Antes que eu acabe de ler a última linha, o telefone toca.
Gilda atende: “Alô? Está!.”
Sem dizer nada, me passa o telefone. Era o Nasser: “Preciso
de você aqui na redação. O Getúlio se suicidou.”

 
24/08/1954 13:20 - Aquele urro medonho, assustador...

Está nas ruas do Rio a edição de hoje do jornal Última Hora com a manchete "Ele cumpriu a palavra - Só morto sairei do Catete".
Não tem jornal para quem queira.
A edição está sendo reimpressa continuamente. Baterá recorde de venda - alguma coisa superior a 600 mil exemplares, segundo projeções do seu dono, o jornalista Samuel Wainer.
Os demais jornais da cidade foram impedidos de circular por multidões furiosas que atacaram suas instalações ou embargaram suas vendas. Eles bateram em Getúlio sem dó nem piedade.
Samuel foi informado do suicídio pelo repórter Luis Costa que estava dentro do Palácio do Catete:
- O presidente acaba de dar um tiro no coração - avisou Costa transtornado.
"Desliguei o telefone e corri para a oficina do jornal", conta Samuel. "Encontrei operários chorando, outros desmaiados. Lembrei-me de que a página com a manchete publicada na véspera - "Só morto sairei do Catete" - continuava composta em chumbo. Tive a idéia de republicá-la exatamente como saíra na véspera, mudando apenas alguns detalhes. Abaixo da frase em que Getúlio previa que não o tirariam vivo do palácio, descrevi o suicídio. Depois subi até a redação, fui para um canto da minha sala e então chorei, chorei bastante".
Foi quando chorava que Samuel diz ter começado a ouvir "um rugido feito de milhares de vozes que vinham lá das bandas da Candelária". Ele olhou então pela janela e viu "uma multidão de manifestantes descalços, subnutridos, feios. Gritavam: "Getúlio". E eu reconheci o mesmo urro medonho, assustador, com o qual me familiarizara durante a campanha eleitoral de 1950".
A massa estancou diante do prédio do jornal e exigiu que Samuel discursasse. Ele o fez pedindo tranqüilidade.
Não haverá hoje tranqüilidade no Rio - nem na maioria das grandes cidades do país.

24/08/1954 14:41 - "A resposta do povo virá mais tarde..."

Do colaborador deste blog, André Noblat:
"Assessores e parentes do presidente morto se recusam a confirmar a informação de que a carta-testamento divulgada na manhã de hoje estava pronta e assinada há vários dias. E que ela foi um manifesto político antes de virar a carta de um suicida.
Quem se mata costuma deixar algo escrito pouco tempo antes de consumar o gesto. Com Getúlio não foi diferente.
A verdadeira carta de despedida de Getúlio foi escrita de seu próprio punho em bloco de papel timbrado da Presidência da República. Tem cinco páginas cuidadosamente numeradas e 247 palavras. Seu tom é menos ufanista do que o empregado na carta-testamento. E trai toda a amargura sentida por Getúlio nos seus derradeiros instantes.
A certa altura dela, o ex-presidente diz que "a mentira, a calúnia, as mais torpes invencionices foram geradas" contra ele "pela malignidade de rancorosos e gratuitos inimigos, numa publicidade dirigida e escandalosa". Getúlio anota a "fraca disposição" para a sua defesa daqueles que estavam ao seu lado. E conclui:
- A resposta do povo virá mais tarde...
O redator dos discursos de Getúlio, José Maciel Filho, foi quem deu a forma final à carta-testamento que está sendo lida pelo país a fora e que será incorporada em breve ao programa do PTB, partido criado pelo ex-presidente.
Há uma forte suspeita entre políticos ligados aos Vargas de que o último parágrafo da carta-testamento foi acrescentado por Maciel Filho depois que Getúlio já a assinara. O parágrafo reúne as palavras mais impactantes da carta:
- Vos dei a minha vida. Agora ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente, dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História.

24/08/1950 14:57 - Sabo, Berger, Olga Prestes... (por Elizabeth Cancelli)

Puxou a cadeira e a xícara de café um pouco mais para perto do rádio. Precisava escutar melhor, sua audição não era boa. A escuta havia sido prejudicada desde a juventude. Nos pesadelos, ainda podia sentir a dor dos tapas do torturador.
Arrastou mais do que depressa a cadeira de palhinha. O locutor falava pausada, mas nervosamente. Não havia dúvidas, Getúlio estava morto, mortinho da silva.
Por um momento era como se tivesse saído da cidade, não parecia que morava no Rio, que havia barulho, gente, vida. Não ouvia nada, revolvia a memória.
Lembrou-se tanto de sua amiga Sabo! Haviam-se conhecido na prisão, ambas foram pegas logo depois do fracasso de 35. Pensou nas conversas sussurradas e na esperança que Sabo tinha de não ser deportada para a Alemanha, da dor que sentia nos seios queimados com pontas de cigarros. Lembrou-se das intermináveis noites na prisão e das colegas presas contrabandeando informações. Harry Berger estaria muito mal. Sabo fora torturada na sua frente e ele mesmo não estava agüentando as sessões de tortura, o ferro quente que lhe enfiavam pela uretra.
Será que se Sabo e Olga estivessem vivas elas se sentiriam vingadas com a morte de Getúlio? Será?
Voltou seu pensamento para Harry Berger. E ele, será que se daria conta de que o pequenino ditador que o transformara em um louco estava morto? Achava difícil. Um amigo lhe contara que fora ver Harry na Alemanha há alguns meses. Continuava completamente louco, fora do mundo, coitado.
Ainda sentada na cadeira de palhinha, algumas lágrimas lhe rolaram pelo rosto. Sentia pelos amigos perdidos, pela violência, pela barbárie. Tinha muita raiva quando via Felinto Muller andar altivo pelas ruas do Rio e Getúlio sorrir como se fosse um velhinho inocente. Agora ele estava morto, estirado em sua cama no Catete. A verdade era que sofrera muito pouco pelo que havia feito. O suicídio acabou sendo uma saída fácil e cômoda.
Ela não se sentia vingada, apenas triste, muito triste.

(Sabo era o codinome de Elisa Iwert, mulher de Harry Berger. Os dois desembarcaram no Brasil no início dos anos 30 a mando da direção do movimento comunista internacional para ajudar o Partido Comunista Brasileiro (PCB) a depor o então ditador Getúlio Vargas. O que passou para a História como a Intentona Comunista de 1935 foi um fracasso. Elisa e Berger acabaram presos e barbaramente torturados pela polícia política de Getúlio chefiada por Felinto Muller. Junto com Olga Prestes, mulher de Luiz Carlos Prestes, líder do PCB, Elisa foi deportada para a Alemanha. Morreu tuberculosa em um hospital. Olga morreu num campo de concentração. Berger foi beneficiado pela anistia decretada por Getúlio em 1942 e mais tarde voou de volta para a Alemanha.)

 
24/08/1954 15:55 - Embalsamado quer dizer imortal? (por Ateneia Feijó)

O pai em casa cedo e a mãe atarantada sem dar muita atenção aos afazeres domésticos, dispersa... sentando-se a toda hora ali na cadeira mais próxima do rádio. “Que exagero!” Pensa a menina de 11 anos, que acompanha há alguns dias as discussões entre o pai getulista e a mãe lacerdista. Aliás, todos discutiam.
A vizinhança inteira, no bairro carioca de Santa Teresa, falava do corvo, de um crime e de uma república do galeão. Ela e as outras crianças ouviam as conversas sobre o pai dos pobres, mas não se intrometiam no mundo dos adultos. Pré-adolescente... gosta mesmo é de conversar com as amiguinhas sobre namorados imaginários e as histórias dos livros que trocam. Mas Getúlio, o Presidente, a fascinava pelo tamanho de sua barriga quando aparecia nas charges ou em fotos nos jornais. E pela quantidade de retratos dele que enxergava quando ia de bonde para o colégio, na Tijuca. Quase todas as lojas e bares têm um retrato dele pendurado numa parede. E agora, o que aconteceria? Teria ele ido para o inferno?
De manhã, quando a diretora do colégio interrompeu a segunda aula do dia mandando todo mundo se levantar, fazer um minuto de silêncio e rezar um Padre Nosso pela alma do Presidente, ninguém entendeu nada. Só depois a diretora explicou que Getúlio Vargas tinha morrido e em sinal de luto o colégio ia fechar naquele momento. A menina sentiu-se repentinamente jogada na rua e divertia-se com a situação. Até perceber que tudo mudava à medida que as portas de comércio iam sendo fechadas.
Um clima esquisito multiplicava e apressava os passos de gente nas calçadas. O bonde que a transportava em direção ao Largo da Carioca, onde pegaria outro para Santa Teresa, começou a superlotar.
Duas mulheres sentadas ao seu lado conversavam de um jeito muito nervoso. Ahah... precisava escutar o que diziam. Escutou: “Suicídio é pecado mortal”. “Mas ele era um bom homem...” “Não adianta, ele se matou!” “Quer dizer que ele vai para o inferno?” A menina teve o sobressalto a tempo de escapar de um inferno real. O bonde não seguia mais em direção ao Largo da Carioca, solavancava sobre os trilhos da rua do Riachuelo.
O que faria? Seu anjo da guarda a guiou para a casa do padrinho, na rua Francisco Muratori, na qual também havia uma linha de bonde para Santa Teresa. Só que era mais caro... Bem, o padrinho lhe emprestaria o dinheiro que faltava.
Com o dinheiro emprestado chegou sã e salva aos braços da mãe e do pai que também fechara sua loja no centro da cidade.
A meninona vivera sua primeira grande aventura. Agora, ouvia no rádio que tinham embalsamado o corpo do Presidente e que ele ficaria exposto à visitação pública. Ué... Sem resistir à curiosidade, a menina pergunta aos adultos: “Embalsamado, ele pode virar um Presidente imortal?” O pai getulista sorriu.

24/08/1954 15:45 - Velório atrasou

Ainda não começou o velório do ex-presidente Getúlio Vargas. Era para ter começado às 13h. Há milhares de pessoas formando uma gigantesca fila diante dos portões do Palácio do Catete. O presidente Café Filho ofereceu à família Vargas o salão de honra do palácio para que o velório ocorresse ali. A família recusou.
O caixão ficará num espaço da parte de detrás do Catete que dá para os jardins.
O trabalho de embalsamamento do corpo está sendo executado por cinco médicos sob as ordens do diretor do Instituto Médico Legal. Levará quatro horas até ser concluído.
Um modelador do Instituto de Belas Artes encarregou-se de fazer em gesso a máscara mortuária de Getúlio, enquanto um desenhista traça seu perfil a lápis.
Foi dispensada a necropsia.
Getúlio não recebeu extrema-unção.

24/08/1954 15:52 - Lacerda, cadê voce?

O general Henrique Teixeira Lott é pule de dez para o Ministério da Guerra do presidente Café Filho. O brigadeiro Eduardo Gomes só não será ministro da Aeronáutica se preferir permanecer em casa de pijama.
Carlos Lacerda desapareceu. É possível que tenha se refugiado na Base Aérea do Galeão. Está convencido de que a carta-testamento de Getúlio é falsa. E reclamou em telefonemas para aliados de Café Filho da excessiva divulgação que ela tem tido.
- O que vocês querem com isso? Querem jogar o povo contra o novo governo? - perguntou Lacerda pela manhã a um amigo de Café Filho.
O clima nas ruas do Rio mudou por completo. Quem ontem xingava Getúlio hoje chora por ele. Quem ontem queria ver Getúlio preso hoje pede a cabeça de Lacerda.
Tem havido quebra-quebra em diversas capitais.
No Rio, milhares de pessoas atacaram a embaixada dos Estados Unidos e a polícia foi obrigada a intervir com violência. A polícia impediu a invasão do prédio da Tribuna da Imprensa.
Em Porto Alegre, três ou quatro pessoas foram mortas à bala durante a depedração do consulado norte-americano.
O retrato de Getúlio já pode ser visto em Salvador entre imagens de santos veneradas em altares particulares. Atabaques soaram por ele em diversos terreiros de candomblé.

 
24/08/1954 16:26 - Daqui a 50 anos, certamente (por Cora Rónai)

Se o impacto dos suicídios pudesse ser medido pela escala Richter, o gesto do ex- presidente Getúlio Vargas certamente ultrapassaria os 6.8 pontos do terremoto verificado às 5h51m de hoje em Stillwater, EUA. Não há nada na memória recente do Brasil que se compare ao abalo que, neste momento, sacode o país.
Ainda que seja difícil avaliar no calor da hora e no epicentro da tragédia a magnitude da sua repercussão, é inquestionável que o suicídio de Getúlio é, desde já, um dos pontos de maior destaque da História do Brasil. Uma história que -- para nossa possível felicidade -- carece de bons elementos dramáticos.
A despeito de qualquer opinião que dele se faça, cumpre reconhecer que o ex-presidente teve, como poucos, o sentido dessa História. Seu último gesto reveste-se de tal carga emocional que, daqui para a frente, será impossível avaliar com serenidade qualquer aspecto da sua herança.
O suicídio não deu fim apenas à sua vida, mas também à objetividade da memória coletiva. Assim, a notícia que ouvimos cedo no rádio e que logo estaremos lendo nos jornais continuará ecoando ao longo dos anos, repetida -- e reinterpretada -- em centenas de livros, peças de teatro, filmes e novelas de rádio, para sempre gravada no imaginário popular.
Não será de admirar se, daqui a 50 anos, os brasileiros ainda estiverem falando deste 24 de agosto de 1954 como se fosse hoje.

 
24/08/1954 - 16:33 - Novos fantasmas metem medo (por Manuel Martinez)

“Saio da vida para entrar na História”
Mas a qual história o ex-presidente Getúlio Vargas queria se referir em sua carta-testamento? Como será o futuro, condição necessária para que Vargas possa ser lembrado?
É inegável que nos últimos nove anos, desde o fim da 2a. Guerra, o mundo se encontra dividido entre capitalismo e comunismo, tendências político-econômicas encarnadas pelos governos dos Estados Unidos (EUA) e da União Soviética (URSS), respectivamente.
Se por um lado o fantasma do fascismo foi derrotado, por outro americanos e soviéticos alimentam o surgimento de novos fantasmas: o da guerra atômica e o da desconfiança mútua permanente.
O conhecimento de um dos usos da fissão do átomo foi tristemente demonstrado em Hiroshima e Nagasaki, cidades japonesas devastadas
pelo poderio atômico dos EUA. Tal fato encerrou a 2a. Guerra Mundial.
Mas a exagerada demonstração de força fez prosperar a suspeita de que ela foi a maneira encontrada por Washington para ressaltar sua pretensa supremacia.
A URSS não quis pagar para ver. Morto há um ano, Stálin, o todo-poderoso líder soviético, havia ordenado que se obtivesse essa tecnologia a todo custo. O pesadelo nuclear cresce com o temor de que os russos também tenham a essa altura a bomba atômica.
A chamada Guerra Fria viveu seu primeiro round com a Guerra
da Coréia, terminada há poucos meses. Mas novos capítulos desse conflito cínico deverão vir por aí.
É inegável que o multilateralismo e a integração física, comercial e política sem interesses belicistas perderam terreno – e não se sabe se um dia o recuperarão.
”Dou o primeiro passo no caminho da eternidade”, disse Vargas.
Os próximos dez anos serão decisivos para esclarecer que tendências geopolíticas os países seguirão definitivamente. Isso nos permitirá saber quanto tempo durará a eternidade pretendida pelo ex-presidente e a forma como ele será lembrado.

24/08/1954 16:45 - Tiro no pleito (por José Viegas Filho)

Escapei da prisão.
Hoje eu ia começar a cumprir cinco dias de detenção no Colégio Militar, no Rio de Janeiro, onde faço o primeiro ano do curso ginasial. E só porque escrevi o meu número – 1188 – na carteira da sala de aula com uma gilete.
Menino de onze anos, acordei triste e inquieto com a perspectiva da prisão, e fui para o colégio com o coração pesado. De repente, veio a notícia da morte do Presidente. Vi as caras sérias e preocupadas dos tenentes, do comandante da Companhia, até que ordenaram:
- Todo o mundo para casa. Não tem mais aula.
Eu ainda perguntei:
- Não vai ter prisão também não?
Eles repetiram:
- Todo mundo embora.
Lembro que os outros que também iam ficar presos comemoraram. Eu não. Afinal, ainda terei cinco dias de prisão pela frente.
Quando cheguei em casa, minha irmã maior, já ecoando comentários lacerdistas, disse:
- O Getúlio deu um tiro no pleito.
- Não foi no peito?
- Não, foi no pleito.
(Haverá eleições para deputados e governadores em outubro próximo.)

24/08/1954 17:05 - A dura vida de repórter (por Jânio de Freitas)

Chegamos à frente do Palácio do Catete entre oito e nove horas da noite de ontem. O Diário Carioca tivera a informação de que logo começaria uma reunião importante no palácio, de ministros e políticos de relevo com Getúlio.
Recém-iniciado no beabá do jornalismo, fui mandado em dupla com Armando Nogueira, profissional já tarimbado por anos de reportagem, para ver o que conseguiríamos. A intenção, claro, era entrar no Catete, sentir o ambiente, ouvir o que fosse possível. O dia fora muito perturbador, de tensão altíssima, varrido de boatos em todos os sentidos.
Primeira frustração: não podíamos entrar no palácio. O acesso pela porta principal estava impedido. Toda a fachada estava isolada e guardada por soldados. O portão de grades, dando para o jardim, estava fechado e guardado por funcionários. Ficamos por ali, na expectativa de que não tardasse a permissão de acesso de jornalistas.
O que ocorreu pouco depois foi o aumento da vigilância com a interdição da rua do Catete, na região do palácio, ao tráfego de carros e bondes. Talvez alertados por notícias de rádio, que todos ouvem quase sem interrupção nesses dias agitados, o número de curiosos aumentava, sem chegar, porém, a uma grande quantidade. Eram pequenos grupos esparsos, em geral discutindo a situação.
A chegada de alguns carros oficiais, que entravam pelo portão de acesso aos jardins, deu a Armando e a mim, afinal, uma atividade determinada: tratava-se da tentativa de identificar em cada carro, com chegadas a intervalos irregulares, quem eram os seus ocupantes.
Tarefa muito difícil, pelo escuro do interior dos carros e, sobretudo, pela posição a que àquela altura estávamos obrigados: a calçada oposta à do palácio, exatamente no trecho mais largo da nada estreita rua do Catete. A percepção de uma figura, um rosto, me ficou gravada para sempre: o general Zenóbio da Costa, o ministro da Guerra que parecia ser o sustentáculo militar inabalável para Getúlio.
Com a chegada paulatina de mais curiosos, os soldados passaram a fazê-los retirar-se. E logo chegou a nossa vez. Mas, aparentemente únicos repórteres por ali, obtivemos a concessão de permanecer. O que não era tão cansativo, mesmo com o passar das horas, enquanto se dispunha até do botequim aberto na esquina.
Talvez lá pela meia-noite, fomos avisados de que mais ninguém poderia ficar ali. Não, nem jornalistas, ninguém. Sem motivo perceptível para isso, só transeuntes seriam permitidos.
Foi assim e por isso que Armando Nogueira e eu praticamos a nossa maratona cívica: passamos a andar de uma ponta à outra da calçada em frente ao palácio, ida e volta sem parada alguma, andamos e andamos, andamos hora após hora, passando pelos mesmos soldados, andamos até umas quatro da manhã, talvez mais para as cinco.
E então os carros oficiais, grandes, todos negros, começaram a sair sinistramente, como se vomitados por espasmos do jardim um logo atrás do outro. Em seguida foram os soldados que se retiraram da rua e das calçadas, sumiram. E à nossa frente, oferecida, generosamente receptiva, lá estava aberta a grande porta principal do Palácio do Catete.
Não é provável que em algum outro dia de sua longa e tumultuada história a grande porta do Catete tenha experimentado tamanho abandono. Um sinal que não traduzimos então.
Entramos. Nem guarda, nem porteiro, nem outro funcionário. Ninguém. Passamos às entranhas do palácio. E no primeiro salão, com várias poltronas de estilo inglês, grandes, de couro vermelho escuro que o uso do poder lustrara bem, enfim encontramos uma pessoa. Pensativo, o enorme cansaço muito evidente no rosto, terno bege, ali estava o jovem ministro da Justiça do governo Getúlio Vargas: Tancredo Neves.
Era a segunda vez que o via naqueles dias. Ainda me espanta a calma atenção que nos concedeu. Aceitou com naturalidade nossa repentina presença e, sem mover mais do que o rosto exausto em nossa direção, nos disse que a reunião não estabelecera decisões e que novos encontros aconteceriam no decorrer do dia.
Vimos uma ou outra pessoa em dependências contíguas, mas ninguém expressivo. Àquela hora, o Diário Carioca já estava saindo de sua alquebrada rotativa, e nem sequer precisávamos procurar um telefone para reportar a Pompeu de Souza ou Luiz Paulistano os frutos minguados de nossa noitada. Estávamos com um dia e um noite de trabalho direto nas costas. Cada qual foi para sua casa.
Foi só o tempo de comer alguma coisa e desabar na cama. E nesse instante ouvir o fantástico prefixo do Repórter Esso. Ligar, autômato, o rádio na cabeceira e ouvir, sucinta e aguda, a morte de Getúlio posta em um noticiário de segundos. Voltei a me vestir, mas o telefone não esperou que acabasse: Pompeu de Souza me chamava para a redação.
Não sei quantas vezes cheguei à redação, narrei ou redigi, e saí outra vez, às carreiras. É impossível lembrar a seqüência de acontecimentos dramáticos, violentos, incontroláveis, gerais na cidade, do centro aos subúrbios. Os jornais costumam narrar poucos fatos suburbanos.
Os acontecimentos no centro foram tantos e tão intensos que eles retiveram repórteres e fotógrafos.
Ataques ao Globo e à Tribuna de Imprensa. A multidão impondo o fechamento do comércio por luto. Reuniões de políticos no Senado, na Câmara, nas casas de muitos deles. A movimentação no Ministério da Guerra, na apelidada República do Galeão, a base aérea em que lacerdistas da Aeronáutica se concentraram para caçar os autores do atentado contra Lacerda.
E Carlos Lacerda, onde estava, o que fazia, no momento em que chegava ao desfecho a campanha que conduzira contra Getúlio?
Do meio para o final da tarde, a agitação mais violenta se aquietou diante da perspectiva de ter início o velório do ex-presidente.

24/08/1954 17:47 - Pai dos pobres, refém deles

Embalsamado, dentro de uma urna coberta por uma tampa inteira de cristal, o corpo do ex-presidente Getúlio Vargas desce neste momento a principal escadaria do Palácio do Catete. Ou melhor: os que o carregam tentam descer com ele. Mas não conseguem da primeira vez. Esbarram numa multidão compacta que ocupou todos os espaços permitidos dentro do palácio - e foi muito além deles.
Há cenas de histerismo protagonizadas por mulheres mais idosas. Algumas desmaiam e são socorridas por soldados. Um homem com pouco mais de 40 anos também desmaia.
O som do choro de toda aquela gente mistura-se ao som de rezas, de imprecações e de lamentos que cede lugar logo depois ao som das vozes que cantam o Hino Nacional do começo ao fim por três vezes consecutivas. Determinadas passagens do hino são sublinhadas não pela tristeza ou o fervor patriótico, mas sim pela raiva. Ouve-se novamente o que o jornalista Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora, qualificou pela manhã de "urro medonho e assustador" -"Getúlio", "Getúlio", "Getúlio".
Há poucos vestígios aqui de "gente bem", engravatada e de educados modos. O corpo daquele que se apresentou durante quase vinte anos como "o pai dos pobres" ficará refém dos pobres até baixar amanhã à sepultura em São Borja.

24/08/1954 18:10 - No meio do caminho tem um corpo (por Luís Roberto Barroso)

Vargas foi protagonista de todos os abalos institucionais das últimas duas décadas no Brasil e sua morte pode ser incluída como o último e mais dramático de todos eles. Vargas liderou, como se sabe, a Revolução de 30, que destituiu Washington Luiz e o levou ao poder, pondo termo à República Velha e à “política do café com leite”. Em 1932, sua demora em convocar a assembléia constituinte que elaboraria a nova Constituição foi um dos motivos alegados para a Revolução Constitucionalista, deflagrada em São Paulo. Convocada, finalmente, a constituinte e elaborada a Constituição de 1934, ela não teve sucesso na pretensão de institucionalizar um modelo político liberal e um início de Estado social. Foi vítima das circunstâncias históricas – a bipolarização ideológica do mundo e a ascensão de regimes autoritários na Europa, em países como Itália, Alemanha, Portugal e Espanha, dentre outros – e do ímpeto ditatorial do Presidente.
Vargas rasgou a Constituição de 1934, no golpe do Estado Novo, e outorgou a Carta de 1937, que serviu mais como um símbolo do poder ditatorial do que como um instrumento de governo. Ao fim da segunda guerra, o presidente ainda tentou articular sua permanência no cargo, mas foi dele afastado por intervenção das Forças Armadas. A Constituição de 1946 coroou o processo de redemocratização e trouxe a esperança de um novo tempo de estabilidade política e de respeito às instituições democráticas. Vargas voltou nos braços do povo, na eleição consagradora de 1950, com uma plataforma de defesa do trabalhador e de proteção da economia nacional.
A oposição, representada por diversos segmentos militares e pela burguesia industrial e financeira, combateu desde a primeira hora o que considerava o “populismo nacionalista” de Vargas. E o atentado contra Carlos Lacerda, que vitimou o Major Rubem Vaz, forneceu combustível para o velho golpismo da política nacional. A formação da República do Galeão, como desdobramento do atentado ao Major Rubem Vaz, criou um poder paralelo e anárquico. E o discurso radical por trás da pressão pela renúncia do presidente fazia temer o pior. Nos últimos dias, a ameaça de que, mais uma vez, a Constituição seria desrespeitada, não era uma ficção. Embora a Carta em vigor, promulgada em 1946, preveja expressamente (art. 79, § 2º) que o Vice-Presidente Café Filho deveria suceder Vargas na hipótese de renúncia, outras soluções pululavam nas mentes mais criativas.
Os riscos de quebra institucional não se foram juntamente com Vargas, mas, ironicamente, a oposição parece excessivamente entorpecida para passar por sobre um cadáver e articular uma solução fora da legalidade. Melhor assim. Com ou sem Vargas, fora do respeito à Constituição o país ficará sujeito a novo golpe de Estado e ao colapso das instituições democráticas. Isso poderia representar o início de uma era marcada pela ausência das liberdades públicas e de sacrifício para os direitos humanos. O país não deve correr esse risco.

 
24/08/1954 18:24 - Eu, que sou sem ser, tudo observo (por Rosane Leiria Ávila)

A cronologia só tem importância para os homens na Terra, que se apegam a contagem do tempo para não perder o fio condutor de suas vidas terrenas. Do outro lado, o tempo não tem um tempo definido. E é por isso que eu, com a permissão de Deus, já sei quem serão os meus pais e posso visitar o local onde nascerei daqui a três anos.
Do alto, posso ver o cotidiano das pessoas com quem conviverei. É de manhã e ainda bem cedo, embora os homens já tenham saído para o trabalho. As ruas da cidade de Rio Grande, no sul do Brasil, estão calmas e as mulheres abrem as janelas de suas casas para entrar a luz do dia de mais um dia em suas vidas.
Mas, de repente, sobre essa cidade, o dia se faz noite no coração das pessoas. Vejo os rostos tornarem-se acinzentados e chorosos. Alguém morreu. Observo-as saírem de suas casas e como fantasmas - não como eu, que não sou fantasma -, irem para as ruas, abismadas em dor.
Tento, do plano onde me encontro, compreender o que está acontecendo. Enxergo Eracy, o homem que um dia será o meu pai, entrar correndo na casa onde morarei, e gritar o nome de Zara, a mulher que um dia será a minha mãe. Diz-lhe que alguém se suicidou. Alguém se matou tragicamente e muito mais tragicamente
deixou milhões de órfãos. São órfãos jovens, adultos e idosos. Órfãos crentes e órfãos cínicos.
Ouço os gritos e o choro incontido da mãe que será minha um dia. Vejo-a erguer o rosto e estender seus braços em direção ao céu, em desespero. Por um momento, até penso que me vê. Mas, não. Olha para o infinito azul do dia. E escuto-a perguntar: "Getúlio, por que fizeste isso?!" E o pai, o meu pai futuro, não ousa resgatá-la de sua dor porque ele próprio não consegue entender a morte premeditada de alguém que deixa órfão uma nação.
Daqui escuto o coro da multidão na rua, que chora, grita e lamenta a morte do presidente deles. E o eco de suas vozes leva até onde estou o seu nome e os detalhes sobre o fato: é Getúlio Dorneles Vargas, que se matou com um tiro no peito, no palácio onde governava, pouco depois das 8h deste dia 24 de agosto de 1954.
Também me é permitido compreender agora que o tiro, o único, o colocará para sempre dentro da História dos homens do seu país. De uma História que conhecerei não nos anos que se seguirem ao meu nascimento. Mas que, por um paradoxo da vida dos homens na Terra, saberei, já à luz da liberdade e da democracia, anos mais tarde, sobre a vida política de um homem que transitou entre o amor de um povo e o ódio feroz de uma elite, e sua marca impressa para
sempre na História deste país.
E refletindo sobre o meu nascimento, agradeço a Deus por eu não ter que voltar neste dia 24 de agosto de 1954. Um dia em que uma nação inteira chora.

24/08/1954 18:30 - O peso da herança maldita (por Raul Velloso)

O homem que governou o país por tantos anos e que nesta manhã deu um tiro no peito deixa situação bastante complicada na economia, principalmente pela ameaça de explosão inflacionária que está no ar. Não que a economia tenha deixado de crescer desde que ele assumiu o poder desta última vez. A despeito da forte escassez de divisas que impera, o Produto Interno Bruto vem crescendo a taxas próximas da média histórica (7% ao ano). Só que isso ocorre na presença de fortes pressões inflacionárias.
De 1949 a 1952, a inflação medida pelo IGP da Fundação Getúlio Vargas vinha se situando ao redor de 12% ao ano. No ano passado, pulou para 20%, e neste, 1954, pode chegar a 25%, segundo as previsões mais pessimistas. Sem qualquer proteção contra a
subida dos preços, a classe trabalhadora pagará preço elevado no manejo de seus contidos orçamentos.
Dado que as exportações (basicamente de produtos primários) continuam estagnadas ao redor de US$ 2 bilhões anuais, e sem maior acesso a financiamentos externos, o governo Vargas vem lançando mão de instrumentos de estímulo à produção local substitutiva de importações, entre outras ações envolvendo a atuação direta do Estado brasileiro com forte viés inflacionário. Os preços de produtos importados têm subido muito e o governo se vê instado a aumentar gastos ou ampliar operações de crédito sob seu controle, no apoio a vários segmentos.
Ainda que a gestão fazendária em si tenha sido austera desde o início do governo, há enormes pressões sobre o fornecimento de crédito pelo Banco do Brasil, onde é maior a ingerência política, entre outras ações voltadas à melhoria dos índices de
popularidade do governo. Nesse particular, destaca-se o desastroso aumento de 100% no salário-mínimo, em 1º de maio deste ano, inviável para as condições atuais, consolidando conjuntura extremamente propícia, do lado econômico, à intensificação da virulenta campanha oposicionista que se trava frente às próximas eleições.

24/08/1954 18:45 - Jogada de mestre (por Lucia Hippolito)

Passadas algumas horas do suicídio do presidente Getúlio Vargas na manhã de hoje, 24 de agosto de 1954, é preciso começar a analisar os primeiros reflexos de seu gesto para o futuro da política brasileira. Getúlio foi um animal político por excelência. Como ele próprio afirmou, não havia inimigo que não conseguisse transformar em amigo. Inteligente, sedutor, mas frio como gelo quando se tratava do cálculo político.
Seu suicídio jamais poderá ser considerado um gesto de desespero, de um político tomado pelo temperamento. Ao contrário, o suicídio sempre fez parte do cálculo político de Getúlio, como uma das possíveis alternativas de superação de um impasse. Foi assim em 30, quando ele saiu do Rio Grande à frente das forças revolucionárias e declarou que se fosse derrotado se mataria; foi assim em 32 quando eclodiu a Revolução Constitucionalista de São Paulo; foi assim em 38, quando sofreu o ataque dos rebeldes integralistas ao Palácio Guanabara, onde residia com sua família. Não seria diferente agora, que a crise atingiu níveis quase insuportáveis.
A tal ponto o suicídio fazia parte de seu cálculo que são cada vez mais fortes os rumores de que a carta-testamento, lida hoje de manhã nos microfones da Rádio Nacional pelo ministro da Fazenda Osvaldo Aranha, não foi escrita pelo próprio Getúlio, mas encomendada há dois meses a seu secretário, o jornalista Maciel Filho.
Com o suicídio, o presidente Getúlio Vargas virou o jogo político. Altamente impopular nos últimos meses, Getúlio evitava sair às ruas no Rio de Janeiro, pois foi vaiado mais de uma vez.
Por isso, foi extremamente corajoso o governador de Minas Gerais Juscelino Kubitschek ao receber Getúlio em Belo Horizonte, no último dia 12, para a inauguração de um alto-forno na Siderúrgica Mannesmann. Certamente Juscelino deverá colher a gratidão dos getulistas, ainda mais porque até agora, trata-se do único governador de Estado presente ao velório do presidente no Catete. Com exceção, é claro, de Amaral Peixoto, governador do Estado do Rio e genro de Getúlio.
Juscelino prepara sua candidatura a presidente da República nas eleições do ano que vem, e como Amaral é o presidente do PSD, naturalmente este gesto deverá ser levado em consideração quando o partido começar a preparar as candidaturas.
Quanto às próximas eleições, ainda é cedo para avaliar o impacto da morte de Getúlio. João Goulart, seu herdeiro presuntivo, é candidato a senador pelo PTB do Rio de Grande, mas Lacerda, seu principal opositor, é candidato a deputado federal pela UDN do Distrito Federal. Uma coisa, porém, é certa: o PSD deverá continuar majoritário tanto na Câmara quanto no Senado. O partido deverá ver consolidada sua atuação como fiador da estabilidade do regime.
Partido majoritário no Congresso e também detentor do maior número de pastas ministeriais, o PSD identificou na figura de Getúlio o cerne da crise e atuou mais no sentido de garantir a normalidade constitucional do que na manutenção de Getúlio na presidência. Segundo relatos de vários presentes, foi Amaral Peixoto quem sugeriu ao presidente que se licenciasse, passando o cargo ao vice-presidente Café Filho.
Dessa forma, o PSD trabalhou para manter a crise em limites politicamente administráveis, neutralizando as manifestações dos mais altos oficiais das Forças Armadas e impedindo um golpe militar.
Com a posse do vice-presidente Café Filho, o PSD pode se dedicar às eleições de outubro, etapa importante das eleições presidenciais do ano que vem.
UDN e PTB deverão voltar-se igualmente para as eleições. Enquanto a primeira vai tentar capitalizar a oposição cerrada que fez ao presidente, o PTB tentará apropriar-se do legado de Vargas e utilizar a bandeira do trabalhismo para aumentar seu poder eleitoral.
Vamos acompanhar os próximos desdobramentos, porque ainda teremos muitas emoções pela frente.

 
24/08/1954 18:52 - Eu não esqueço. Não esqueço (por Ivan V.S. Batalha)

Quando hoje pela manhã se espalhou a notícia do suicídio de Getúlio, a primeira impressão que eu tive de cima dos meus 24 anos de idade foi de espanto com a súbita mudança de humor da população. Getúlio, execrado até a véspera, passara, de repente, a ser visto como santo.
Entretanto, eu não esqueço que aquele personagem, centro da cena política por dezoito anos, fora, durante pelo menos oito, um ditador; e que, reconduzido à chefia do país pelo voto popular, afogou-se em um "mar de lama" decepcionando não poucos de seus eleitores. Não esqueço, tampouco, o culto da personalidade que se instaurou nos anos de ditadura e o quanto contribuíram para isso até certos artistas que, infelizmente, não raro, estão prontos a esquecer princípios éticos para servir a quem quer que detenha o poder.
Exemplo clamoroso disso foi Villa-Lobos, com sua saudação a Getúlio ("Viva o Brasil ! Salve Getúlio Vargas ! O Brasil deposita sua Fé, sua Esperança e sua Certeza do Futuro, no Chefe da Nação!"), cantada por milhares de colegiais sob a regência do compositor no estádio do Vasco da Gama, em São Cristóvão, presente, naturalmente, o homenageado. Isso e os desfiles do Dia da Raça foram cerimônias dignas dos regimes fascistas que, então, imperavam na Europa.
E, assim - forçoso é confessar -, não me emocionou o suicídio de Getúlio. Mas admirei a coragem desse homem, cujo último gesto político serviu para mudar, radicalmente, a opinião das massas, deixando, na memória coletiva, apenas o que fez de bom.
 

24/08/1954 19:56 – Para amenizar o luto

O ano da morte de Getúlio Vargas foi fértil em canções e comerciais de rádio que alcançaram grande sucesso. Destaco aqui oito deles. O programa “Museu de Cera” já existia em 1950, mas sua abertura é imperdível. E “Retrato do Velho” estourou nas paradas musicais em 1951 – mas como deixá-la de fora numa ocasião dessas? Amenizem com música o luto por Getúlio.

Abertura do programa de rádio “Museu de Cera”;
Clique aqui

Retrato do Velho (marcha de carnaval de Haroldo Lobo e Marino Pinto gravada em 1951 por Francisco Alves)
Clique aqui

Vida de Bailarina (samba-canção de Chocolate e Américo Seixas gravada em 1954 por Ângela Maria)
Clique aqui

Comerciais de Eucalol, Talco Rossi e Melhoral
Clique aqui

Comercial de Alka Seltzer
Clique aqui

Carlos Gardel (tango de Herivelto Martins e David Nasser gravado em 1954 por Nelson Gonçalves)
Clique aqui

Teresa da Praia (samba de Amntônio Carlos Jobim e Billy Blanco gravado em 1954 por Dick Farney e Lúcio Alves)
Clique aqui

Alvarenga e Ranchinho + prefixo do Repórter Esso
Clique aqui

Valsa de uma Cidade (valsa de Ismael Neto e Antônio Maria gravada em 1954 por Lúcio Alves)
Clique aqui

O Menino de Braçanã (toada de Luís Vieira e Arnaldo Passos gravada em 1954 por Luís Vieira)
Clique aqui

24/08/1954 21:02 - Pela libertação nacional (por Waldir Pires)

1954, manhã de 24 de agosto! A emoção incontrolada, nunca antes tão intensamente vivida, em face da notícia bruta, surpreendente, que nos chega pelo rádio, informando a morte de Getúlio Vargas, do suicídio praticado com um tiro no peito, em defesa do destino nacional. É a vida do Presidente da República imolada em favor das esperanças e da independência da pátria.
Meus 27 anos de idade, começo da vida política, candidato a deputado estadual, na Bahia, pelo Partido Trabalhista. Minha cabeça cheia dos ideais libertários que alimentam a formação da minha geração, nascida politicamente na luta contra o nazismo e alimentada pelos sonhos mais generosos de liberdade, paz e solidariedade da atmosfera do após-guerra.
Vou para as ruas. O povo já as ocupou instantaneamente. O conteúdo da carta de Vargas conquista velozmente as consciências e compõe o quadro emocional explosivo da indignação coletiva. É a força das denúncias escritas com o seu sangue, a espoliação da nação e do nosso povo pelos grupos econômicos e financeiros nacionais e internacionais; o regime de opressão social e de discriminação do trabalho.
A sangria das fraudes de milhões e milhões de dólares que esvaziam a economia nacional, impedem o desenvolvimento do país e a libertação do povo. A conspiração contra a Petrobrás, vitoriosa pela mobilização de todos e de toda a nossa juventude; a obstaculização da Eletrobrás, fundamental para a emancipação energética, para o caminho do progresso econômico.
Os adversários de Vargas somem das ruas, se escondem do povo. A morte de Vargas e sua Carta-Testamento interrompem o golpe de estado em marcha que impunha sua renúncia. A Democracia vai vencer. A minha geração política, que amanhece nesses anos 50, tem a consciência de seu dever irrenunciável de fortalecer a luta democrática do nosso povo e conquistar a independência e a soberania nacionais, para organizar uma sociedade digna e justa.

 
24/08/1954 21:05 - E amanhã, haverá aula? (por Fernando Guedes)

A aula recém tinha começado, hoje de manhã, quando a diretora entrou na sala e avisou, já em prantos: vamos pra casa, o doutor Getúlio se matou e vai haver muita confusão. A nossa casa é perto, fica a uns quatro quarteirões da Escola Experimental Presidente Roosevelt, no bairro Menino Deus, aqui em Porto Alegre. Mas nesse curto trajeto, nós já cruzamos com alguns homens enfurecidos. Alguns levavam pedaços de pau e pedras. Com outros dava pra ver, nos bolsos, ou debaixo da camisa, a “munição”.
Já na rua de casa, e eu meu irmão mais velho vimos a primeira manifestação de revolta pela morte do Velho Getúlio. A fábrica do refrigerante Laranjinha teve todas as vidraças quebradas. Em casa, o rádio despejava notícias sem parar. Bairro tranqüilo, quase exclusivamente residencial, o Menino Deus está calmo. Mas as sirenes e as notícias indicam que a confusão é grande. Aqui em casa, a coisa se agitou mesmo agora que o meu pai, Francino, chegou. Passa um pouco do meio e eu entendo melhor o que é ser getulista.
Francino estava no Rio desde o dia 9 de agosto e desde ontem estava no Palácio do Catete, de onde saiu hoje de manhã cedo. Funcionário do gabinete do Secretário de Agricultura do governo gaúcho, Maneco Vargas, filho do presidente, Francino tinha estado no Rio em julho e recebera uma missão do presidente:
– Seu Francino (Getúlio, segundo meu pai, chamava todo mundo de “seu”) eu quero que o senhor vá ao Itu (a fazenda) ver como estão as coisas lá e venha trazer as notícias.
Quando voltou dessa viagem ao Rio, em julho, Francino contou que ouvira uma frase emblemática de Getúlio: Ah, seu Francino! Que saudade do Itu...
Meu pai só conseguiu voltar ao Rio no dia 9 e ficou lá até hoje
de madrugada, quando saiu do Catete para voltar pra Porto Alegre. Ele soube da morte do Getúlio quando chegou no aeroporto. Na hora que entrou em casa, estava quase fora de si. “Os filhos da puta mataram o velho...” repetia em prantos e andava de um lado para outro.
Alguns amigos getulistas chegaram aqui em casa pouco tempo depois da chegada do meu pai. Já mais calmo, tentando organizar melhor as idéias ele fez um relato do que conseguira ver e ouvir no Rio e no Palácio do Catete.
– O amigo que foi me levar do aeroporto pro Hotel Serrador, em Copacabana, confirmou que tinha o dedo do Gregório no atentado contra o Lacerda. A coisa já estava fervendo. No mesmo dia que eu cheguei, teve o discurso daquele deputado udenista, o Afonso Arinos, metendo o pau no Doutor Getúlio.
No dia 10, contou Francino, ele foi ao Catete. Não viu o presidente, mas viu muita gente importante, até ministros pedindo a benção, como ele dizia, ao Gregório que àquela altura ainda estava no Palácio. Francino foi orientado a esperar uma chamada do presidente.
Já são quase seis da tarde, Francino interrompe a conversa e insiste em ir para o centro, onde o quebra-quebra continua. Os amigos o convencem a ficar em casa e ele relembra os últimos momentos no Catete.
– Ontem de manhã, a boataria sobre um possível ataque ao Catete era grande e eu e uns amigos resolvemos voltar pra lá. Muita gente estava se juntando nas proximidades do palácio. Lá dentro, tinham começado a distribuir armas. E eu vi algumas pessoas inventando história pra ir embora pra casa... Já era quase meia-noite quando o Lutero nos chamou e disse que estava providenciando a nossa volta: o papai não vai renunciar. Ele vai resistir aqui no Catete e vocês precisam organizar as coisas em Porto Alegre, disse o Lutero, que tinha falado com o doutor Getúlio na hora da janta... Os filhos da puta mataram o velho...
Já são quase 8 da noite e as conversas continuam lá na sala. Francino esbraveja sentado na poltrona encostada na parede onde está dependurada uma foto que ele tem como relíquia: Getúlio Vargas e todos os seus filhos. A foto tem uma dedicatória de Spartaco ( o Pataco Vargas) e está autografada por todos. A dedicatória: Ao Francino, como amigo que sempre foi da família Vargas, dedicamos.
Nós fomos mandados pro quarto. Será que amanhã tem aula?

 
24/08/1954 21:20 - "O diretor entrou na sala e falou..." (por Cristovam Buarque)

Entrevista com um menino de 10 anos, morador do bairro dos Aflitos, no Recife. Feita às 16 horas do dia 24.08.54
* Por que você acha que o presidente se suicidou?
* Meu pai disse que ele foi obrigado a fazer isso. Que os inimigos dele, os ricos e os americanos, queriam tirar ele do governo. E porque ele era muito corajoso preferiu morrer a se entregar. E queria que todos se lembrassem dele para sempre.
* Que horas você soube da morte do Presidente?
* Foi antes do segundo recreio.
* Qual é a sua série?
* Quarta.
* E qual é o colégio?
* São Luiz.
* Como você soube?
* Foi o diretor do colégio. Ele entrou na sala, falou baixinho com o professor. E depois disse que a aula ia terminar. Era para a gente ir para casa. Foi uma algazarra grande. Aí ele disse que o presidente tinha morrido. E disse que foi de uma maneira feia. Deu um tiro nele mesmo. Que isso é um pecado muito grave. Foi um silêncio medonho. Ninguém falou nada. Ficou todo mundo calado. Todo mundo arrumou os livros na pasta sem falar. E fomos para casa.
* O que disseram os seus colegas, logo depois?
* Quando eu ia para casa, a gente conversou. Queríamos saber por que ele tinha feito aquilo. Mas, logo eu cheguei em casa. Minha mãe estava na calçada esperando por mim e meu irmão. Estava chorando muito. Me levou para dentro e ficou ouvindo o rádio. Na hora do almoço meu pai chegou. Estava muito triste. Ele e ela falaram baixinho e ficaram ouvindo o rádio o tempo todo. Eu ouvi meu pai dizer que queria ler a carta do presidente. Disse que ia fazer um quadro para colocar na parede. E que do lado ia botar um retrato do Getúlio.
* O que disse mais o seu pai?
* Ele disse que o Getúlio era um homem muito bom. Minha mãe achava ainda mais. Ela chorou muito. Disse que o Brasil ia ficar pior. E que ele fazia muito bem para os pobres. Acho que ele fazia. Ela disse que a Vila dos Comerciários, onde minha avò morava tinha sido feita por ele. A Vila dos Bancários, onde eu passo para ir ao colégio também tinha sido ele. Acho que tudo que tem no Brasil foi ele quem fez.
* E você acha que vai ser ruim para o Brasil ficar sem o presidente Getúlio?
* Acho.
* Por que?
* Isso eu não sei. Mas acho que vai ser ruim. Era melhor que ele ficasse vivo e presidente.
* E depois depois do almoço e de conversar com seu pai, o que você fez?
* Fui brincar. Jogar bola.

24/08/1954 21:27 - Uma moeda chamada Getulinho (por Rony, 9 anos)

Belém do Pará, 5 horas da tarde
Meu pai sempre diz que Getúlio não presta.
Mamãe pensa o contrário.
Afinal, ela foi promovida para a letra Ó nos Correios e acha que deve isso ao Presidente.
Lá em casa é assim, cada um pensa de um jeito diferente.
Menos a Dindinha, que me cria enquanto mamãe trabalha. Como não tenho irmãos, ela sempre acha aquilo que eu acho e eu penso o mesmo que ela pensa.
Dindinha nunca me falou do Getúlio. Imagino que acredita que o governador Magalhães Barata é mais importante que o Presidente.
Por isso, tomei um susto quando minha professora chamou Getúlio de cachorro.
Ah, sim, é por aí que a história começa.
Eram dez horas da manhã de hoje, dia 24 de agosto de 1954. Tinha acabado de sair do recreio e ainda estava com um pedaço de tangerina na mão.
Dona Maria José é a professora de geografia e estava ensinando a história do rio São Francisco. Tinha acabado de dizer que o rio começa da Serra da Canastra, quando bateram na porta.
Era Zuleide, a moça que tomava conta da merenda.
As duas cochicharam, Zuleide parecia nervosa e a professora estalava os dedos.
Dona Maria José deu um suspiro, esfregou as mãos e falou para turma:.
- O velho cão morreu.
No princípio, a gente ficou triste porque pensou no Biriba. O cachorro vira-lata que brinca com a gente no recreio era cão, mas não é tão velho assim para morrer de repente.
- Meninos, o velho cão morreu. Getúlio meteu uma bala no peito”, explicou Dona Maria José.
Que bom, não era o Biriba. Mas, mesmo assim fiquei chateado.
A professora é tão enfezada que fiquei desconfiado da alegria dela.
Se Dona Maria José ficou tão satisfeita com a notícia, vai ver que Getúlio devia ser um bom sujeito.
Todo mundo foi dispensado e disseram que não vai ter aula até depois de amanhã.
Duas coisas fizeram eu entender a verdadeira importância da notícia da morte de Getúlio.
A primeira foi o feriado. A segunda, um caminhão do Guaraná Andrade, coberto de pano preto, que passou na escola na hora que eu estava saindo.
A rua Braz de Aguiar vazia e aquele caminhão todo preto me impressionaram muito.
Agora, toda vez que eu passar na porta do Colégio Ipiranga vou me lembrar do Getúlio, da quase morte do Biriba e da cara de alegria de dona Maria José.
Em casa, papai continua achando que Getúlio não vale nada e mamãe acende velas pela alma dele. Ela disse para papai que o culpado disso tudo é o corvo.
Não sei direito o que é corvo, mas acho que é uma espécie de urubu.
Até agora não entendi o que urubu pode ter a ver com uma bala no peito do Presidente.
Vou procurar no Tesouro da Juventude porque lá tem qualquer explicação sobre a vida dos bichos. Acho que vou descobrir como corvo pode matar uma pessoa.
Dindinha não sabe bem quem é Getúlio, mas chorou muito ouvindo uma carta que foi lida no rádio.
Também não entendi bem porque todo mundo chora quando ouve essa carta. Deve ser coisa de carta de amor das novelas da Rádio Nacional. Dindinha sempre chora quando ouve a novela das oito.
Para não me esquecer nunca mais dessa história, vou guardar uma moeda de dez centavos de cruzeiro, que o povo chamava de Getulinho.
O dinheiro não vai dar para comprar nada, mas serve para eu me lembrar sempre dessa manhã sem chuva, em que as ruas ficaram vazias, o barulho do rádio sai pela janela das casas, o Colégio Ipiranga suspendeu as aulas, o Biriba não morreu e Dona Maria José chamou Getúlio de cachorro.

 
24/08/1954 21:29 - Como se fosse na Semana Santa (por Maria Ida Fontinelle)

Tenho quatro anos e moro em Belo Horizonte. Hoje não tem escola e eu não sei bem porquê. Só sei que entro na cozinha e vejo Alice - que muito mais do que a empregada da minha casa é minha madrinha e uma referência afetiva importante para mim -, num pranto convulso que certamente irá durar vários dias. Ela me diz que morreu o único homem que se importou com os pobres nesse país. Aprendi cedo com ela que as pessoas nem sempre gostam das mesmas pessoas. Meus avós e meus pais não gostavam desse Getúlio que morreu e eles estavam assustados, mas não estavam chorando como ela. A rádio tocava música triste o dia inteiro, igual na semana santa.

24/08/1954 21:37 - Cunhado não é parente (por Luiz Cláudio Cunha)

O tiro que ecoou nesta manhã no Palácio do Catete, no Rio, acerta em cheio o coração político do Rio Grande do Sul. Berço e túmulo a partir de amanhã do presidente Getúlio Vargas, que se matou não tem nem um dia ainda, o Estado natal do homem mais poderoso e influente da história republicana dos últimos 24 anos se depara, agora, com uma dramática questão, ainda sem resposta: como sobreviver ou reviver na política diante da trágica saída de cena de um personagem da dimensão de Getúlio Vargas?
Mais do que para o Brasil, o morto deste 24 de agosto abre um imenso ponto de interrogação para os gaúchos, que chegaram ao poder nacional no momento em que se uniram em torno de seu governante, líder do levante de 1930 que derrubou a República Velha. Até o desfecho sangrento desta manhã, o Rio Grande do Sul e seu povo sempre raciocinaram em torno do Getúlio que reinou absoluto, como chefe revolucionário, presidente, ditador ou líder de massa, unindo e dividindo a política brasileira.
Todos os principais personagens da política riograndense - aliados e adversários, desafetos e protegidos – têm Getúlio como ponto de referência, para o bem ou para o mal. Numa terra que nunca deu espaço para a terceira via, o Rio Grande aprendeu a escolher um lado, para ganhar ou para perder.
Da Revolução Farroupilha à Aliança Liberal de 30, das batalhas sangrentas entre federalistas e republicanos de 1983 ao enfrentamento de chimangos e maragatos para garantir a alternância de poder em 1923, os gaúchos aprenderam a pelear por suas idéias. Getúlio ensinou uma novidade: é possível brigar por idéias e ganhar, mais cedo ou mais tarde, com a virtude da paciência e a manha da conciliação. Para isso, a partir da redemocratização de 1946, Getúlio introduziu duas siglas partidárias que, dependendo das conveniências, alternam o poder no país e no Rio Grande: o PTB das massas e o PSD dos caciques. Oscilando entre um e outro, Getúlio dividiu, uniu e reinou.
Brigou com o ex-aliado Eurico Gaspar Dutra e aliou-se ao ex-inimigo Ademar de Barros, que forjou a aliança PTB-PSP que devolveu Getúlio, pelo voto, ao Catete perdido para os generais. Um bom exemplo desta prática getulista é o atual governador gaúcho, Ernesto Dornelles, também nascido em São Borja e primo de Getúlio. Na ditadura do Estado Novo, foi interventor no Estado. Fundador do PSD no sul, concorreu ao governo gaúcho em 1950 pelo PTB, por decisão de Getúlio. Naquele ano, o presidente abençoou na Igreja uma forte união política do PTB gaúcho: Getúlio foi padrinho de casamento do engenheiro e deputado estadual Leonel Brizola com Neusa, irmã do presidente nacional do partido, João Goulart.
Ex-ministro do Trabalho, Goulart assume a condição de herdeiro natural do getulismo, enquanto o cunhado prepara a campanha para deputado federal. Órfãos de seu líder maior, o PTB e o Rio Grande do Sul vão depender, daqui em diante, dos rumos políticos que tomarão Goulart e Brizola. Não se sabe ainda o quanto de paciência, manha e conciliação os dois herdaram do mentor e patrono.
De uma forma ou de outra, o tiro deste 24 de agosto vai ecoar forte nas idéias e atitudes de Goulart e Brizola. As carreiras políticas de um e outro, graças ao derradeiro gesto de Getúlio, não ficarão mais restritas às fronteiras do Rio Grande. Agora, com certeza, elas terão repercussão sobre a história do Brasil dos próximos anos.

24/08/1954 21:45 - Direto de São Luiz do Maranhão (por Nagib Jorge Neto)

No primeiro momento a nossa turma ficou contente com o comunicado do irmão marista: todos podiam ir para casa, as aulas estavam suspensas. Em seguida, ele esclareceu que o país estava de luto, o presidente Getúlio Vargas acabara de morrer. Não falou nada sobre como aconteceu, mas alertou para que a gente ficasse em casa, o país estava em crise e a situação poderia se agravar com protestos e distúrbios nas ruas.
Ninguém atentou para o alerta, até porque os jornais, as rádios, vinham enfocando a crise “político-militar”, a tentativa de forçar a renúncia de Vargas ou conseguir sua deposição. Daí alguns foram para o Cine Teatro Artur Azevedo, que exibia um seriado com Durango Kid, outros foram tomar sorvete na Praça João Lisboa. Por volta hoje do meio dia, a cidade de São Luís começava a ter notícias mais detalhadas sobre o suicídio de Vargas e de sua carta testamento.
Não demorou e começou a juntar gente na Praça João Lisboa, na Praça Benedito Leite, tanto que no final da tarde o clima era de revolta contra os adversários ou inimigos do Presidente. A Carta Testamento - lida nas rádios, num serviço de som improvisado - agitava as pessoas na João Lisboa, onde ficava o Moto Bar, ou na Benedito Leite, no bar do Hotel Central, lotado por políticos, líderes estudantis e sindicais.
Ninguém fez discurso, mas de vez em quando surgiam pessoas gritando Viva Vargas, morte aos golpistas, e esse sentimento foi expresso num editorial do Jornal do Dia, feito por Erasmo Dias, político e escritor, intitulado Era Madrugada. Dizia mais ou menos assim: Era Madrugada e ele chorava. Daí seguia falando do revolucionário de 30, do nacionalista, do escravo do povo, do sonho de Vargas e do seu compromisso com a soberania nacional. Aquele texto, assim como a Carta Testamento, me marcarão para sempre, tenho certeza.

 
24/08/1954 22:12 - O que dá investir em imagem... (por Marcos Coimbra)

Ainda não é possível saber o que dirão as próximas pesquisas de opinião, mas é certo que a comoção causada pelo desaparecimento de Getúlio será registrado por elas.
Não custa lembrar: Getúlio recebeu, em 1950, uma consagração nas urnas - 3,8 milhões de votos, superando em 600 mil a votação do general Eurico Gaspar Dutra cinco anos antes. Todos os dez presidentes anteriores, de Prudente de Moraes a Washington Luís, somaram cerca de 4,8 milhões de votos.
No futuro, quando nossa democracia for grande, dirão que foi pouco o que ele teve, insuficiente até para eleger o Prefeito de São Paulo nos primeiros anos do século XXI. Mas nós sabemos que foi muita coisa.
Na volta ao poder, Getúlio colheu os frutos do investimento em imagem que, às vezes com ele, às vezes sem e até contra ele, seus assessores de comunicação plantaram por meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) durante o Estado Novo.
Já em 1945, a preocupação deles com imagem havia rendido a Getúlio uma cadeira no Senado pelo Rio Grande do Sul, e a eleição para deputado federal em nada menos do que sete Estados.
É verdade que seu governo terminado hoje foi marcado, desde cedo, por uma crônica dificuldade de relacionamento com a chamada opinião pública. E por opinião pública nestes anos 50 entenda-se o sentimento das classes médias de nossas poucas cidades grandes: Rio de Janeiro e São Paulo.
Nelas, os modos de administrar e de fazer política do getulismo logo encontraram a oposição ativa dos derrotados em 1950, aos quais se aliaram os insatisfeitos com as políticas do governo.
Tivéssemos hoje meios de comunicação de massa efetivos, robustos e abrangentes nos quesitos cobertura e penetração, talvez Getúlio pudesse ter se dirigido diretamente à maioria da população em busca do seu apoio. Sem poder falar com "seus" pobres, ele pouco pode fazer.
De imediato, a morte de Vargas abre caminho para seus adversários. Mas as pesquisas de opinião do futuro certamente reservarão para ele um lugar bem maior e confortável.

 
24/08/1954 22:16 - Nem que seja de carona (por Pedro Simon)

Eu estava na sala da presidência do centro acadêmico quando chegou a notícia da morte do presidente Vargas pelo Repórter Esso. Imediatamente, saí à rua em companhia de alguns colegas. Havia uma grande movimentação. Ficamos impressionados com a comoção das pessoas que choravam e que se lamentavam. Todos pareciam atordoados. A pé, fomos até o centro da cidade. Vimos quando pessoas revoltadas incendiaram a Rádio Farroupilha. Assistimos também à depredação do Diário de Notícias.
Vendo aquelas cenas eu refletia. Morreu o maior estadista brasileiro de todos os tempos. Foi condenado à morte pela elite nacional - militar, política e jornalística, que jamais o aceitou. Mas, com seu suicídio, ele os golpeou. Não terão o poder, agora. Talvez leve muito tempo para que os golpistas consigam tomar o controle da nação.
Nos seus dois mandatos, o presidente Getúlio Vargas atravessou três décadas terríveis, sangrentas. Foi um homem de paz num tempo de ódios arraigados. Foi um governante sereno numa época de fundo radicalismo político. Avesso às paixões, ele soube se manter eqüidistante da extrema direita e da extrema esquerda. Homem comedido em todos os aspectos de sua vida pessoal, ele foi pródigo em grandes gestos políticos que desnorteavam seus adversários. Mais do que com palavras, Getúlio Vargas governou esta imensa nação com seus desconcertantes silêncios.
Depois, caminhamos a esmo pela cidade. Por todo lado, a mesma desolação. Em certos momentos, parecia que estávamos vivendo um pesadelo coletivo. Eu só tinha uma certeza: as pessoas humildes foram as que mais sofreram com a morte do presidente. O povo é sábio. O povo soube avaliar a grandeza do pequeno homem que saiu aqui do nosso pago distante para governar esta imensa nação.
Acredito que o Brasil não será o mesmo depois de Getúlio Vargas. Somos agora um país com muitas industrias e, por isso, podemos sonhar em ser uma grande nação. Vargas nos deu essa chance.
Pessoalmente, o que mais me impressionava no presidente Vargas era a sua incomparável sagacidade, a sua insuperável habilidade para tratar com as lideranças políticas. Ele era um especialista em avaliar corretamente os homens. Sabia como atraí-los para o seu lado. Mesmo seus mais ferrenhos adversários, acabavam sucumbindo diante do seu talento, da sua simpatia.
Estou muito apreensivo com o que pode acontecer daqui para diante. Pelo rádio,eu soube que o presidente vai ser enterrado em São Borja. Farei tudo para ir até lá. Mesmo que tenha que pedir carona na beira das estradas.

24/08/1954 22:54 - Da Itália para Jundiaí via Peru e Bolívia (por Sandro Vaia)

Um 24 de agosto frio e claro.
Estávamos esperando a segunda aula. Estudo na Escola Paroquial Francisco Telles, na rua do Rosário, no centro de Jundiaí. Uma escola de Irmãs Vicentinas. Elas usam um estranho chapéu engomado, duro, com três pontas altas impecavelmente brancas. Estou no terceiro ano primário.
Faz seis meses que cheguei ao Brasil. Saí da Itália com seis anos, morei um ano no Peru e três na Bolívia, de onde vim e onde estudei numa escola de jesuítas.
Mal entendo ainda a língua e o país. Dito este depoimento para um amigo, que me entende. Meu pai morreu há dez dias.
Estou triste e confuso.
Então a irmã superiora entrou na classe com uma expressão muito assustada e disse:
- Meninos, há um boato muito triste e muito assustador sobre o nosso presidente. Espero que não seja verdade. Mas vocês saiam ordeiramente e vão para casa. Hoje não haverá mais aulas.
Saímos em silêncio e intrigados.
Na rua ficamos sabendo de uma notícia terrível e distante sobre um presidente morto.

24/08/1954 23:00 - Sem tirar o pijama (por Tânia Fusco)

Todos têm uma cara esquisita. Tem um medo no ar e isso está assim desde a hora que eu acordei.O rádio, no criado-mudo do meu pai, não toca músicas, mas todo mundo presta muita atenção no que está sendo contado. Vovó me serviu automaticamente um café com leite. Nem presta atenção se eu tomo ou não. Meu pai não vestiu o terno nem saiu de casa. Minha mãe, que dorme sempre até tarde, já está acordada. Minha irmã não foi pra escola. E nem esta doente, nem é domingo porque não tem macarronada e frango no almoço.
O dia não é normal. Está tudo diferente. O rádio está ligado o tempo inteiro. O sino da igreja toca muito, quando pára o alto-falante toca a Ave Maria. Ninguém ri. Ninguém fala alto. E a empregada chora na cozinha.
- Você ta triste?
- To. Mataram o Getúlio lá no Rio de Janeiro.
Eu continuo brincando sem fazer barulho, sem entender esse dia tão diferente, com a família inteira em casa em volta do rádio verdinho. O Rio de Janeiro é muito longe de Camanducáia (MG). O Getúlio era um homem importante. “O presidente da República”, explicou minha irmã, mais velha e mais sabida: “O Getúlio se suicidou, deu um tiro no peito, e ninguém sabe o que vai acontecer agora. Por isso é que ta todo mundo assim.”
O dia todo será gasto no pé do rádio. Eu aprendi quatro palavras novas: Getúlio, suicídio, Rio Grande do Sul e Lacerda.
Acabei de fazer três anos. O rádio ligado, a movimentação diferente, lenta, e de voz baixa, os rostos sem sorrisos ficaram na lembrança como um dia tão diferente que ficarei de pijama até a hora do banho pra dormir. Ninguém se lembrou de me vestir. Está todo mundo muito ocupado com as notícias do rádio.

 
24/08/1954 23:15 - O sacrifício de Olga (por Tales Faria)

Circulam no Palácio do Catete rumores de que, além da chamada Carta-Testamento, o presidente Getúlio Vargas teria deixado a seus familiares um bilhete, não divulgado, em que reclama de traições e dos falsos amigos. "Velho e cansado" teria preferido definitivamente "ir prestar contas ao Senhor". Por curiosa ironia, é sobre um casal de ateus que Getúlio certamente deverá ter mais dificuldades de se explicar aos céus: o ainda vivo líder comunista Luiz Carlos Prestes, e sua mulher, a judia alemã Olga Benário, morta nas câmaras de gás do nazismo.
Presos durante o período ditatorial do primeiro governo Vargas, Prestes e Olga foram barbaramente torturados. Comandou a prisão e a série de interrogatórios de ambos o temível chefe da polícia de Getúlio, o coronel facista Filinto Muller. Sob suas ordens e com autorização direta do presidente, Muller foi mais além. Determinou que Olga Benário fosse literalmente seqüestrada da Casa de Detenção do Rio de Janeiro e deportada para a Alemanha do anti-semita Adolf Hitler.
A militante comunista foi transportada diretamente para Hamburgo no navio La Coruña, contrariando normas internacionais que impediam o translado de mulheres grávidas. A prisioneira já estava às vésperas de dar luz à sua filha única com Prestes, Anita Leocádia. Talvez ainda venha a ser tema de livros no futuro, ou de algum filme, o inferno por que passou Olga Benário desde sua prisão até o momento em que foi assassinada pelos nazistas no Centro de Eutanásia de Bernburg, sem contato com o marido – ainda preso no Brasil – e afastada da filha recém-nascida.
Poucas horas antes de partir para a câmara de gás, Olga também deixou sua Carta-Testamento, ainda mais dolorosa e pungente do que a de Getúlio: "Querida Anita, meu querido marido, meu garoto: choro debaixo das mantas para que ninguém me ouça pois parece que hoje as forças não conseguem alcançar-me para suportar algo tão terrível". E, mais adiante:
- Lutei pelo justo, pelo bom e pelo melhor do mundo. Prometo-te agora, ao despedir-me, que até o último instante não terão porque se envergonhar de mim. Quero que me entendam bem: preparar-me para a morte não significa que me renda, mas sim saber fazer-lhe frente quando ela chegue. Mas, no entanto, podem ainda acontecer tantas coisas... Até o último momento manter-me-ei firme e com vontade de viver. Agora vou dormir para ser mais forte amanhã. Beijos pela última vez".
A carta foi escrita no começo de fevereiro de 1942, um pouco antes de Olga completar 34 anos, logo após as mulheres do campo de concentração de Ravensbruck terem sido reunidas no pátio central para ouvir a relação das 200 prisioneiras que na manhã seguinte seriam transportadas e mortas. Número 150 da lista, a mãe de Anita Leocádia, assim como Getúlio, entrou para a História. O pai de Anita, a História e Getúlio Vargas acabaram se reencontrando.
Em 18 de abril de 1943, Vargas assinou um decreto que concedeu anistia aos presos políticos. Antes mesmo que o ato fosse publicado no Diário Oficial, os cinco primeiros beneficiários da medida deixaram as prisões. Dentre eles estava Prestes que, logo ao sair, elogiou o presidente da República.
Em 1947, já secretário-geral do partido Comunista do Brasil, Prestes e Vargas dividiram o mesmo palanque político no Anhangabaú, em São Paulo, no comício de apoio ao candidato a vice-governador do Estado. Getúlio Vargas e Luiz Carlos Prestes trocaram cumprimentos e a assistência irrompeu em aplausos.

 
24/08/1954 23:50 - O exemplo de Renato Pinheiro (por André Dusek)

Ao chegar hoje de manhã ao Palácio do Catete encontrei meu colega Renato Pinheiro pálido e com a boca seca. Ele tinha acabado de sair do gabinete presidencial. Fotógrafo oficial do presidente Getúlio Vargas, Renato foi uma das primeiras pessoas a ver o presidente morto. Levei-o para a cantina para lhe pagar um café. Mais calmo, ele começou a organizar a cabeça e me contou que ontem, por volta das 18 horas, pegou a sua câmara Speed Graphic e subiu para o gabinete do presidente para fotografar uma audiência. Tenso, Getúlio recebia um grupo de donas de casa que protestavam contra a carestia. Renato fez a foto e desceu para revelar a chapa. Naquele momento não imaginava que tinha feito a última foto de Getúlio com vida.
Lá pelas 19 horas, o chefe do Gabinete Militar, general Caiado de Castro, disse para Renato: “Olha, pela primeira vez nestes dias turbulentos nós vamos dormir mais cedo. Boa noite”. Renato mora em Botafogo e deu carona pára o jornalista Luiz Costa, que escrevia a coluna “O Dia do Presidente”. Às 22 horas, Luiz Costa telefonou para Renato dizendo que tinha passado de novo no Palácio e que a situação não estava tão calma como o general previa. Havia grande movimento com gente entrando e saindo. As luzes nos gabinetes Civil e Militar estavam acesas.
Renato e Luiz Costa chegaram de carro ao Catete e dirigiram-se direto para o Gabinete Civil. Lá estava só o embaixador Lourival Fontes, chefe da Casa Civil, convocando os ministros para uma reunião urgente. A pedido do embaixador, Renato e Luiz pegaram o telefone e ajudaram a convocar os ministros. Passou-se a noite e eles lá: Renato, Luiz Costa, o cinegrafista oficial Ramon Garcia e outros jornalistas do Correio da Manhã, da Noite e do Globo aguardando notícias.
O dia amanheceu. Às 8 horas da manhã, Renato estava na sala de imprensa quando Artur, um dos seguranças do Getúlio, apareceu chorando. Renato perguntou: “O que que há?” . Artur respondeu, trêmulo: “O presidente, ó..!!” (e fez um gesto com a mão como que estivesse dando um tiro em si próprio). Renato vestiu o paletó e subiu, sem a câmera, para o quarto do presidente. Ao entrar, ele viu a cena que ficará para sempre gravada na sua mente: Dona Alzira com a cabeça do pai no colo, lamentando-se: “Por que você fez isso, por que?”.
Getúlio matou-se com um tiro de revólver Colt 32 no peito. Renato ainda viu a chegada ao quarto dos ministros Tancredo Neves e Osvaldo Aranha, que reclamou: “Como é que deixaram este homem sozinho? Como pode um negócio desses?”. Naquele momento, em segundos, como num filme em flash back, Renato começou a recordar de tudo o que se passou na sua vida, que o fez estar ali, diante daquela cena histórica.
Em 1951, Renato foi convidado para ser o fotógrafo do presidente e procurava desde então fazer um trabalho diferente dos outros fotógrafos de imprensa. Certa vez o presidente viajava pela Bahia visitando poços de petróleo. O engenheiro botou óleo no capacete e mandou o presidente pôr a mão para sentir a qualidade do produto. Todos os fotógrafos pediram para o presidente: “Um cumprimento, presidente, um cumprimento..” (já naquela época os fotógrafos pediam para fazer o "shaking hands").
Todos fizeram a foto, menos Renato, que não fotografou naquele momento. Como estavam com câmeras Speed Graphic, demoravam um tempo para trocar a chapa. Aproveitando a oportunidade, após o cumprimento, Renato pediu para Getúlio mostrar a mão. Dessa forma, fez sozinho a foto do Getúlio com a mão escorrendo óleo.
Renato viu tudo aquilo passar pela sua memória enquanto Getúlio jazzia morto à sua frente. De repente, deu um estalo e o quarto do presidente já estava cheio de ministros e assessores. Renato desceu a escada para telefonar para a mulher e, no pátio, encontrou o fotógrafo Jean Manzon, da revista O Cruzeiro e também representante da Paris Match. Manzon pulou em cima dele, cobrando:
- E a fotografia lá de cima?
Renato respondeu:
- Não tem fotografia.
Manzon não acreditou: "Como, não tem fotografia? Preciso da foto para a minha revista. Você pega a Rolleiflex, vai lá em cima e bate cinco, seis chapas e me entrega o filme".
Renato respondeu: "Manzon, não tenho condições".
Manzon insistiu: “Mas você é um profissional, deixe de sentimentalismo”.
Renato não cedeu: “É, mas o profissional às vezes faz isso. Lá em cima estou me sentindo uma pessoa da família e acho que ninguém da família vai chegar numa hora dessas e fotografar. É assim que me sinto, pela maneira como eles sempre me trataram”.

Manzon pegou um cheque em branco, assinou e disse: “Preencha no valor que você quiser, mas eu quero o filme” .
Renato respondeu que não tinha condições, não dava, e devolveu o cheque. E só a perícia fotografou a cena.
Renato saiu dali e não se arrependeu de ser o fotógrafo que não fez a foto de Getúlio morto no colo da filha. Não se arrependeu hoje e acho que não se arrependerá nem daqui a cinqüenta anos.

24/08/1954 23:59 - O adeus a Getúlio

Dona Darcy Vargas transferiu para a filha todas as decisões a serem tomadas para o enterro do ex-presidente Getúlio Vargas. Transtornada, mas sem chorar, Alzira passou o dia sentada numa poltrona de frente para o caixão. Quando alguém chegou lhe dizendo que o governo mandara oferecer honras militares, perguntando onde o corpo de Getúlio seria enterrado, ela respondeu que o pai voltaria para a terra dele, São Borja. E avisou: “Não quero honras militares”. Dispensou também o oferecimento do brigadeiro Eduardo Gomes que pôs à disposição os aviões da FAB para transportar o corpo, parentes e amigos. De forma altiva, Alzira agradeceu e acentuou que a família já aceitara o oferecimento idêntico da empresa aérea particular Cruzeiro do Sul.
O avião da Cruzeiro do Sul seguirá diretamente para São Borja. O vôo não fará escala em Porto Alegre para evitar o risco de novos tumultos ali. A notícia do suicídio de Getúlio provocou na cidade muita pancadaria e corre-corre. As sedes do PSD e PSS foram danificadas. Instalações de jornais, do Consulado Americano, da National City Bank of New York, da Importadora Americana, da Radio Difusora e do Círculo Militar acabaram depredadas e incendiadas. Pegos de surpresa, a Polícia Militar e o Corpo de Bombeiros locais nada fizeram para conter a violência.
A Diretoria da Aeronáutica civil ordenou a interdição do aeroporto Santos Dumont, amanhã, das 8:00 às 13:00 horas. O movimento de outros aviões será transferido para o aeroporto do Galeão. Informações desse tipo começam a dar consciência aos cariocas de que a despedida definitiva do corpo de Getúlio se aproxima.
Intensificam-se as manifestações passionais. Os soluços parecem amplificados próximos ao corpo de terno preto sob a tampa de cristal do caixão em uma das dependências do Palácio do Catete. Ao lado do caixão, bilhetes com mensagens de gente simples se acumulam bem depressa. Um homem de aspecto humilde se aproximou por volta das 22h e pôs com todo o cuidado um livro do Novo Testamento sobre a urna funerária. Antes, porém, fixou longamente o olhar no crucifixo, pendente de um rosário, que se encontra entre as mãos do Presidente morto. Depois saiu de mansinho sem olhar para trás.
São 23h59 do dia em que Getúlio se matou.

Artigos

 

Entre Getúlio e a UDN
(*) José Dirceu de Oliveira

            No dia 24 de agosto de 1954 eu tinha 8 anos, estava fazendo o curso primário no grupo escolar Presidente Roosevelt, em Passa Quatro (MG), e me recordo como se fosse hoje da notícia da morte de Getúlio Vargas - e também da suspensão das aulas. A comoção que tomou conta do País eu só tinha visto em 1952, quando eu estava indo para Guareí, perto de Itapetininga, onde eu tinha um tio, Antônio Fumeiro - porque ele revendia fumo goiano na região de Sorocaba -, e praticamente presenciei o acidente que tirou a vida de Francisco Alves na via Dutra, entre Pindamonhangaba e Taubaté. Vi o caminhão, o carro, as últimas providências. Acompanhei depois toda a comoção, que lembrei diante da comoção pela morte do Getúlio Vargas - que me deixou muito impressionado, apesar de ser muito criança.
            Meu pai, Castorino de Oliveira e Silva, era gráfico e tinha uma tipografia, a Tipografia Progresso, com João Mota, de quem foi sócio durante toda a vida. Meu pai era da ala civilista da UDN, foi janista, apoiou o golpe militar de 1964 (ou, como eles diziam, o Movimento de 64), mas depois rompeu no Ato Institucional nº 2, junto com a ala do então grupo do deputado Bilac Pinto. João Mota, por sua vez, era trabalhista, getulista e progressista. A dor dele na morte de Getúlio também me deixou muito impressionado.
            Depois, eu voltei a me deparar com o getulismo no golpe militar de 64, que eu assisti do andar em que trabalhava, no escritório do então deputado Avalone Júnior, ex-prefeito de Bauru, localizado na Praça da República, em São Paulo. Quando, na época, vi os estudantes do Mackenzie descendo a rua Maria Antonia em direção à Praça da República, tive a certeza de que aquilo só interessava às elites.
            Assim, posso dizer que desde a minha infância a imagem do Getúlio Vargas sempre foi muito presente na minha vida, ao lado também de todas as grandes lideranças da UDN, o que quer dizer também que convivi desde pequeno com a dualidade entre getulismo e udenismo. Acho que meu espírito aliancista, de trabalhar sempre para um consenso, e minha paixão pela democracia talvez venham do berço, dessa convivência democrática que meu pai foi capaz de manter durante décadas com João Mota.

(*) José Dirceu é ministro da Casa Civil

Revisando a História
(*) Ruy Mesquita
            Quando houve o atentado da Rua Toneleros, na madrugada de 5 de agosto de 1954, o diretor da sucursal carioca de O Estado de S. Paulo era o Rafael Corrêa de Oliveira, paraibano, que escrevia comentários quase todos os dias. Ele tinha pedido licença do cargo para cuidar de sua candidatura a deputado federal.
            Então meu pai (Julio de Mesquita Filho) encarregou a mim e o José Maria Homem de Montes (ex-repórter e depois diretor do jornal) de irmos ao Rio de Janeiro. Deu uma lista de pessoas com quem achava que deveríamos conversar para saber, por dentro, o que estava se passando. Além disso, meu pai me encarregou de dirigir a sucursal em lugar do Rafael na cobertura que fizemos dos acontecimentos.
            Naquela época, eu estava brigado com o Carlos Lacerda. Não falava com ele desde a véspera da eleição de Getúlio em 1950 porque durante a campanha ele fora agressivo com o Brigadeiro Eduardo Gomes. Discordou do fato de o Brigadeiro ter aceito o apoio dos integralistas. Rompi com ele e não nos falávamos desde então. Fiz as pazes com Carlos Lacerda visitando-o - ele estava com o pé engessado - no apartamento da rua Toneleros.
            Relendo, agora, o que nós fizemos, digo que hoje não daria o tom que dei, ou que outros que trabalharam comigo deram, à cobertura da crise que se sucedeu ao atentado contra Lacerda. Porque eu estou convencido de que o Getúlio, com quem sempre tivemos uma relação de crítica violenta, de antagonismo total, pelo que ele representou na história que precedeu essa tragédia no Brasil desde 30; estou convencido hoje de que ele de fato não sabia de nada. Não foi ele quem tramou, com sua guarda pessoal, o atentado contra Lacerda.
            Estou convencido de que o atentado possa ter sido tramado por alguém de sua família, provavelmente o Benjamin Vargas, que era irmão dele e uma figura sinistra, um dos emblemas do estilo de governo de Getúlio, na medida em que era um caudilho desrespeitador de qualquer preceito democrático. Sua crônica se distinguia por atitudes sempre incompatíveis com o regime democrático.
            Getúlio Vargas, entre outras coisas que criticávamos nele, havia transformado não toda a cidade do Rio de Janeiro, mas aquela área de Copacabana e da Urca numa sucursal de Havana, a Havana dos piores tempos (de Fulgencio Batista), vivendo da jogatina. Ele tinha relação íntima com os donos da jogatina. Havia quatro ou cinco cassinos.
            Benjamin era um grande freqüentador desses cassinos. Contava-se que no auge de sua atuação, provavelmente no período ainda ditatorial - porque o jogo acabou com a eleição do marechal Dutra, por imposição de sua senhora, Dona Santinha -; contava-se que no tempo da jogatina o número favorito dele era o 5. O crupiê do cassino fazia girar a roleta e dizia: "Preto, 17...Para o Dr. Benjamin Vargas, vermelho, 5". Era esse o padrão.
            Muito mais que o Benjamin, foi acusado o Lutero Vargas de ter sido o mandante do crime. Eu não o conhecia, pois não conheci nenhum deles pessoalmente. Não acredito nisso, porque por toda a crônica que tive sobre o caráter e o estilo de vida de Lutero Vargas, ele era completamente diferente do Benjamin. De qualquer maneira, me parece, hoje, que Getúlio foi desagradavelmente surpreendido pelo episódio. Não era mesmo muito o gênero dele, embora tenha praticado barbaridades muito maiores do que essa no período áureo de sua ditadura, instalada em 1937.
            Acho que fizemos no jornal uma cobertura muito facciosa. Mas não deliberadamente facciosa, pois fomos levados a isso pela atmosfera que reinou naquela ocasião, depois do atentado, quando a população do Rio de Janeiro se voltou majoritariamente contra o governo de Getúlio, senão contra a pessoa dele, à medida que ia se apurando a participação da guarda pessoal dele. Houve depredação de carros de chapa branca, uma série de manifestações.
            A única saída para Getúlio Vargs, e ele viu isso, era virar o jogo praticando o suicídio. Na edição do dia seguinte, o Estado lhe rendeu as homenagens que se rendem, de praxe, numa situação como essa, dizendo que ele teve um gesto digno. Esse gesto mostra que ele tinha um tino político enorme porque não havia outra saída, senão essa, se quisesse passar para a história como pai dos pobres, como político brasileiro mais popular, como presidente brasileiro que mais apoio teve do povo.
            Na véspera do suicídio, eu estava hospedado com o Montes no Hotel Glória, que fica ao lado do Catete. Passando à porta do palácio, tarde da noite, de regresso ao hotel, fiz um comentário premonitório, embora não conscientemente premonitório. "Isso aqui está com ar de velório". Na manhã seguinte, fui acordado por um telefonema do Montes para me contar o que tinha acontecido. Quando desci para o saguão do hotel, o ambiente já havia mudado. Havia uma histeria coletiva, todo mundo chorando, todo mundo se voltando furiosamente contra Lacerda, o herói da véspera.

(*)Ruy Mesquita é Diretor de o Estado de S. Paulo

Do Blog de Ricardo Noblat.•

Publicado por Paulo Nunes, às 16:50
deixe seu comentário


 
    Página principal
.   Artigos
.   Editorial do TL no rádio
.   Entrevistas
.   Cidadania
.   Especiais
.   Imagens
.   Polícia
.   Artistas
.   Saúde
.   Meio Ambiente
.   Música
.   Esporte
.   Vídeos
.   Perfil
.   Conheça sua cidade
.   Conquista Bairro a Bairro
.   Regras para comentários
.   Fotos do programa de rádio
 
Perfil

Paulo Nunes
É jornalista e advogado;
• Iniciou no jornalismo em julho de 1987, como repórter do jornal ‘O Radar’ de Vitória da Conquista;
Foi repórter do Correio da Bahia em 1998;
Foi repórter da Revista Panorama da Bahia da Cidade de Feira de Santana;
• Foi repórter e colaborador da Revista ‘A Bahia de Hoje’;
Em 1990, criou o ‘Jornal Hoje’ de Vitória da Conquista;
• Em 2001, foi editor chefe do ‘Diário do Sudoeste’ de Vitória da Conquista;
Em 2001 iniciou como comentarista do Programa ‘A Cidade em Revista’ da Rádio Clube de Conquista, junto com o radialista Edmundo Macedo;
• No dia 14 de julho de 2004, por determinação da direção da Rádio Clube de Conquista, se tornou apresentador do Programa ‘Tribuna Livre’ que vai ao ar de segunda a sexta-feira, ao meio dia pela Rádio 96 FM - um programa líder de audiência no horário.

 
 
Kadeconquista.com